Foi realizado na última semana do mês de maio o maior evento mundial de oncologia, o 56º Congresso de Asco (American Society of Clinical Oncology) e trouxe notícias promissoras para o tratamento e o diagnóstico do câncer de próstata. O evento foi apresentado de forma 100% online.

O estudo apresentado no congresso mostrou que duas drogas tiveram resultados favoráveis, e uma análise piloto mostrou que a triagem genética pode ajudar a identificar casos não diagnosticados de tumores na próstata.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer Inca (Inca), no Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não-melanoma). Em valores absolutos e considerando ambos os sexos, é o segundo tipo mais comum. A estimativa de novos casos para 2020 é de 65.840, segundo o Inca; em 2017, houve 15.391 mortes, levando em consideração os dados do DataSUS.

Metástase adiada e maior sobrevivência


Um novo medicamento que já se encontra disponível no Brasil, é capaz de adiar a metástase em pacientes com câncer de próstata não-metastático resistente à terapia de privação hormonal (bloqueio de testosterona) foi apresentado no congresso após estudo fase 3 feito com 1.500 homens de 150 centros distribuídos pelo mundo, entre eles 25 centros de pesquisa clínica no Brasil.

O oncologista Karim Fizazi, oncologista no Instituto Gustave Roussy e professor titular de oncologia na Universidade de Paris Sud, disse em apresentação para a imprensa que os objetivos do tratamento com o remédio são aumentar a sobrevivência e retardar a progressão da doença.

Esse tipo de medicamento é indicado para os casos de tumores que ainda não desenvolveram metástase, mas que demonstram alto risco para tal e que perderam a resposta à terapia hormonal. Estudos indicam que cerca de um terço dos homens com esse tipo de câncer desenvolve metástase quando as células cancerosas atingem outras áreas do corpo dentro de dois anos a partir do desenvolvimento da resistência à castração.


Os resultados obtidos foram satisfatórios: aqueles que estavam em tratamento com o medicamento darolutamida demoraram em torno de 40 meses, ou seja, quase quatro anos para desenvolverem metástase sem terem sua rotina normal afetada, enquanto o grupo que recebeu placebo desenvolveu algum tipo de metástase em 18 meses.


O uro-oncologista, Murilo Luz, brasileiro que participou do estudo Aramis, que pesquisou o medicamento diz o seguinte: "O câncer de próstata resistente a este 'bloqueio' de testosterona é uma forma avançada da doença, em que o câncer continua progredindo apesar do tratamento com terapia de privação hormonal. A chamada 'terapia de privação androgênica' busca reduzir o nível dos hormônios masculinos (andrógenos), um dos principais responsáveis por estimular as células do câncer de próstata a crescerem".

Nessa situação, a darolutamida impede que o hormônio seja recebido pelas células do tumor retardando a disseminação do câncer sem acrescentar efeitos colaterais graves. "Acredita-se que este perfil de segurança favorável se deve, entre outras causas, ao fato de o medicamento agir sem grande penetração no sistema nervoso central, contribuindo para que o paciente passe pelo tratamento mantendo a sua qualidade de vida", ressalta o uro-oncologista.

"É claramente uma vantagem em termos de segurança, e é melhor prevenir [a metástase] do que tratá-la", enfatiza o oncologista, Karim Fizazi.


Pesquisa no Brasil


Por enquanto, o tratamento convencional para câncer de próstata avançado causa diminuição da testosterona, podendo levar à impotência, perdas de libido e de massas óssea e muscular, fogacho (sensação súbita de ondas de calor pelo corpo), além de outras complicações neurológicas e cardiovasculares.


Para avaliar um tratamento hormonal que não diminui a testosterona em pacientes com câncer de próstata avançado foi feito um estudo com 128 pacientes brasileiros. A testosterona é como um "alimento" para a célula cancerígena, por isso, o procedimento padrão é a castração hormonal. A droga estudada impede que a testosterona chegue a célula cancerígena, mas ainda precisa de uma segunda etapa de estudo maior.


"Aplicamos em pacientes com câncer avançado de próstata novas terapias hormonais que não diminuem os níveis de testosterona, usando medicamentos inibidores de sinalização de andrógenos (apalutamida e abiraterona) que podem fornecer alta eficácia, com um perfil de segurança favorável e efeitos colaterais menores", explica Fernando Maluf, diretor médico associado do Centro Oncológico da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo e investigador principal da pesquisa.


Ainda de acordo com Maluf, a pesquisa buscou uma opção as terapias já consolidadas, mas que utilizam mecanismos que ainda trazem muitas alterações na qualidade de vida do paciente. A combinação dos andrógenos apalutamida e abiraterona causa respostas muito importantes de PSA, substância produzida pela glândula prostática, e evita a progressão radiológica do paciente.


Somente o uso da apalutamina causou um aumento da testosterona ao invés da queda, com resultados interessantes. "Esse estudo mostra que novas terapias podem substituir a castração. Agora, será realizada uma pesquisa com um número maior de pacientes para confirmar esses dados. Caso se confirme, pela primeira vez a castração poderá ser substituída por medicamentos hormonais que não diminuem o nível de testosterona, revelando um grande avanço na área oncológica", ressalta Maluf.


Triagem genética


A triagem genética pode ser eficaz na descoberta de casos não diagnosticados do câncer de próstata, mostra um estudo piloto britânico. Os pesquisadores "codificaram" os homens para seu risco genético de câncer de próstata, testando cada um deles para 130 alterações no DNA e deram aos que estavam sob maior risco as instruções de acompanhamento.


O resultado do estudo trouxe a descoberta de que a triagem populacional é segura e viável, e identificou novos cânceres de próstata em mais de um terço dos homens aparentemente saudáveis que apresentaram os mais altos níveis de risco herdado.


O Instituto de Pesquisa do Câncer, de Londres, e o Royal Marsden NHS Foundation Trust trabalharam com os médicos de clínica geral para convidar mais de 300 homens caucasianos saudáveis, com idades entre 55 e 69 anos, para participar da triagem.

Durante a pesquisa foram coletados DNA de amostras de saliva de 307 homens e analisado mais de 130 alterações genéticas que podem influenciar o risco de desenvolver câncer de próstata.


Os pesquisadores combinaram os efeitos das alterações genéticas para atribuir a cada homem uma pontuação geral de risco. Isso, por sua vez, permitiu que os homens fossem colocados em diferentes faixas de risco, dependendo de como o seu nível de risco se comparasse com outros da população.


Aqueles homens que ficaram entre os 10% de maior risco, sendo eles 26 dos 307, que foram selecionados para triagem e contatados pelos pesquisadores. Destes, 18 homens aceitaram e foram submetidos a uma ressonância magnética e uma biópsia, e desses 18 homens aparentemente saudáveis, sete foram diagnosticados com câncer de próstata.

O nível de aceitação considerado bom entre os homens e a eficácia na detecção de doenças não diagnosticadas mostram que a triagem populacional é possível e pode ser reproduzida em uma escala ainda maior.


Com a demonstração de que a iniciativa é viável, um estudo piloto completo, chamado BARCODE1, está pronto para ser lançado. Este estudo envolverá 5.000 pacientes de 70 clínicas.


A expectativa dos pesquisadores é que a triagem genética seja capaz de detectar cânceres potencialmente agressivos com mais eficácia do que os testes de PSA, o que é controverso por causa de suas altas taxas de diagnóstico excessivo.


"É vital que encontremos maneiras de colocar nosso crescente conhecimento da genética e biologia do câncer para trabalhar não apenas para encontrar novos tratamentos, mas também para identificar métodos direcionados para a detecção precoce da doença. É ótimo ver que essa pesquisa agora está progredindo para uma maior escala, que, se tiver sucesso pode mostrar o potencial da triagem genética para salvar vidas", disse Paul Workman, diretor executivo do Instituto de Pesquisa do Câncer.


Câncer de próstata


Pode-se dizer que é um câncer masculino, pois, a próstata é uma glândula que só o homem possui e que se localiza na parte baixa do abdome. Ela é um órgão pequeno, tem a forma de maçã e se situa logo abaixo da bexiga e à frente do reto (parte final do intestino grosso). A próstata envolve a porção inicial da uretra, tubo pelo qual a urina armazenada na bexiga é eliminada. A próstata produz parte do sêmen, líquido espesso que contém os espermatozoides, liberado durante o ato sexual.


Considerado um câncer da terceira idade, tendo em vista que cerca de 75% dos casos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos. O aumento observado nas taxas de incidência no Brasil pode ser parcialmente justificado pela evolução dos métodos diagnósticos (exames), pela melhoria na qualidade dos sistemas de informação do país e pelo aumento na expectativa de vida.


Alguns desses tumores podem crescer de forma rápida, espalhando-se para outros órgãos e podendo levar à morte. A maioria, porém, cresce de forma tão lenta (leva cerca de 15 anos para atingir 1 cm³) que não chega a dar sinais durante a vida e nem a ameaçar a saúde do homem.

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Fonte: UOL

Imagem: 123RF