A detecção de um vírus que fez estragos na Europa e nos EUA pode colocar em risco a sobrevivência das abelhas Jandaíra (Melipona subnitida), uma das 300 variações de abelhas sem ferrão existentes no Brasil. O Vírus das Asas Deformadas (DWV, na sigla em inglês) foi tido por especialistas como um dos responsáveis pelo declínio massivo de colônias de abelhas com ferrão na EUA e em países da Europa a partir de 2006. No Brasil, a chegada do vírus foi comprovada em estudo inédito de pesquisadores da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), publicado em janeiro deste ano na revista científica britânica Journal of General Virology, da Microbiology Society, e premiado no Reino Unido.

A pesquisa, realizada entre maio de 2017 e dezembro de 2018 em parceria com a Universidade de Salford (Inglaterra), indicou que o vírus estava presente em 100% das colônias de abelhas Jandaíra, que são responsáveis pela polinização de até 90% da mata nativa no Nordeste.

A espécie só existe no Nordeste, segundo pesquisadores, e era criada por índios antes mesmo da colonização dos portugueses em 1500. Esta abelha atua principalmente na polinização da vegetação de citros, morango, café e hortaliças, de acordo com o setor de apicultura da Embrapa Meio-Norte (estatal voltada para pesquisa agropecuária).

Um dos apicultores que trabalha com as abelhas Jandaíra é Raimundo Nonato da Silva Aires, 55, que cria há 25 anos os insetos em Araióses (MA). Ele tem 30 colmeias da espécie e obtém cerca de 2 a 3 litros de mel por colmeia por ano. O produto é vendido por R$ 120 o litro. O valor chega a ser três vezes maior que o retirado de abelhas africanizadas (Apis melífera), que produzem até 36 litros por ano. A diferença se dá pela quantidade de abelhas por colmeia (3 a 4 mil na Jandaira, enquanto a africanizada supera 80 mil) e pelo processo de fermentação.

"É um mel especial, tem muitas propriedades boas pra saúde. Para fazer remédio pra dor de garganta, mesmo, é muito bom. A maioria das pessoas que compra aqui usa para fazer medicamentos. Mas não tem muita produção na região, aqui só eu e mais uns dez apicultores, com produção igual a minha", explica Aires.


Preocupação no meio ambiente
A notícia sobre a descoberta do vírus já virou motivo de preocupação para a Apacame (Associação Paulista de Apicultores Criadores de Abelhas Melíferas Europeias), entidade que representa mais de 600 grandes apicultores no estado de São Paulo.


"A abelha é o maior agente polinizador que existe no planeta. Praticamente 75% de todos os vegetais existentes no planeta só existem porque têm abelhas para polinizar suas flores, oferecendo condições para sobreviver e alimentar a população", aponta Radamés Zovaro, diretor técnico da Apacame. Segundo ele, a chegada do DWV é "muito preocupante".

Pesquisadora na área de apicultura da Embrapa Meio-Norte, Fábia de Mello Pereira declarou que apesar das abelhas sem ferrão serem nativas do Brasil, "sabemos muito pouco sobre elas, por isso é difícil determinar o impacto da descoberta deste vírus".

O que é a ameaça DWV
O Vírus das Asas Deformadas teve os primeiros registros na Ásia, nos anos de 1970, e se espalhou pela Europa e América do Norte a partir de 2007, em um fenômeno que ficou conhecido como CCD (Colony Collapse Disorder) ou Síndrome do Colapso de Desordem da Colônia. O declínio das abelhas iniciou-se com a associação do vírus com o ácaro Varroa destructor, um gênero que se alimenta das larvas de abelhas, e, de acordo com os especialistas, transformou-se numa pandemia mundial por meio do comércio e transporte de abelhas para a polinização de culturas.

"Esse ácaro é um parasita que possui o vírus. Ele injeta na abelha uma carga viral. Com o tempo, aparecem efeitos como quebra de asas, redução do tamanho do corpo e do tempo de vida, normalmente de três meses", diz a bióloga Flaviane Souza, da URFB, que participou da pesquisa.

Ela lembra que estudos anteriores já apontavam para a presença de vírus em abelhas com ferrão no Brasil, mas não se sabia de que tipo era e, por isso, não havia maiores preocupações. "Outros estudos já foram conduzidos também na Argentina com abelhas sem ferrão, sem, contudo, detectarem a presença viral para a espécie Jandira. Agora podemos dizer que esse vírus é mundial", afirma. Segundo ela, o nível da infecção no Brasil ainda é pequeno se comparado à Europa e aos EUA, mas pede monitoramento da situação.

O DWV tem três variantes (tipos A, B e C), sendo que a primeira foi a mais encontrada no Brasil na pesquisa, sendo semelhante à que atingiu os EUA, segundo Flaviane. O tipo C também foi constatado em alguns lugares do país, mas ainda há falta de informações sobre ele. "Foi recentemente descoberto", destaca a bióloga.


Colaborador da pesquisa, o professor Stephen J. Martin, da Universidade de Salford, relata que, até o momento, mais de 60 espécies de insetos e cinco espécies de aranhas e ácaros foram infectadas com o DWV.

"A pesquisa detectou que existem abelhas no Brasil infectadas com a rara cepa C do vírus, que se acredita ser mortal para esta espécie. Então, agora é importante determinar se o DWV está causando impacto na flora e fauna local", avalia.

Como combater o vírus?
Segundo pesquisadores da UFRB, ao longo dos anos foram desenvolvidas técnicas para combater o ácaro nas abelhas, mas de eficácia duvidosa, como limpeza natural das abelhas, já que o ácaro é possível de ver a olho nu. Outras técnicas sugerem o uso de produtos químicos, mas ainda não se sabe os efeitos que esses produtos poderiam causar nas próprias abelhas. "(Talvez) as próprias abelhas estejam se adaptando ao vírus", alerta Flaviane.

"Há pesquisas sendo feitas na Inglaterra nesse sentido, comparando abelhas que foram contaminadas com o vírus há dez anos com outras que foram contaminadas agora. Provavelmente teremos novidades ainda este ano", acredita.


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