O hormônio do crescimento (GH, do inglês growth hormone) é produzido pela glândula hipófise, sendo responsável por regular a estatura e o crescimento ósseo. Mas uma descoberta do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP talvez faça não apenas esse hormônio mudar de nome, como também seja preciso atualizar os livros didáticos de fisiologia. Os cientistas constataram que o GH também é responsável por ativar um grupo de neurônios do hipotálamo chamado AgRP, que controlam a ingestão alimentar e o gasto energético.

Nos experimentos com camundongos, diante da restrição alimentar, o organismo dos animais do grupo controle sofreu uma série de alterações metabólicas e endócrinas para economizar energia. Os animais sem receptores de GH nos neurônios AgRP não entraram nesse "modo econômico" e, com isso, perderam mais peso e gordura corporal.


Esses achados abrem um precedente para que o bloqueio do GH possa ter uma utilidade terapêutica no tratamento da obesidade. "A longo prazo, nossos achados podem estimular a realização de mais pesquisas para o desenvolvimento de compostos ou drogas com o objetivo de otimizar a perda de peso", afirma o professor José Donato Júnior, do Departamento de Fisiologia e Biofísica, um dos autores do estudo.


Os dados estão descritos no artigo Growth hormone regulates neuroendocrine responses to weight loss via AgRP neurons publicado no início de fevereiro na revista científica Nature Communications, e que tem a pesquisadora Isadora C. Furigo como primeira autora.


"Descobrimos que mais de 90% dos neurônios AgRP expressam receptores de GH", conta Donato Junior. Sentir fome é uma sensação que vem de sinais emitidos pelo cérebro, que sabe que a pessoa está sem comer pois algum hormônio deu esse sinal para ele: o GH é esse sinal.


Os dados estão descritos no artigo Growth hormone regulates neuroendocrine responses to weight loss via AgRP neurons publicado no início de fevereiro na revista científica Nature Communications, e que tem a pesquisadora Isadora C. Furigo como primeira autora.


"Descobrimos que mais de 90% dos neurônios AgRP expressam receptores de GH", conta Donato Junior. Sentir fome é uma sensação que vem de sinais emitidos pelo cérebro, que sabe que a pessoa está sem comer pois algum hormônio deu esse sinal para ele: o GH é esse sinal.

O professor lembra que um trabalho publicado na década de 1960, na Revista Science, já havia mostrado que o GH é altamente secretado quando estamos em privação alimentar. Para atuar no crescimento corporal, a secreção de GH precisa ter um padrão pulsátil, secretado em pulsos, ao longo do tempo. Quando há privação alimentar, o GH passa a ser secretado de maneira contínua, mas esse novo padrão impede que o hormônio atue estimulando o crescimento. Mas então para que o corpo produz GH durante a privação alimentar?

Essa era uma pergunta que, até então, os cientistas não conseguiam explicar. A pesquisa trouxe respostas a este questionamento: os pesquisadores do ICB descobriram que o GH, ao ativar os neurônios AgRP durante a privação alimentar, estimula o "modo econômico" do organismo, diminuindo a secreção de hormônios da tireoide e o metabolismo. "Por isso é tão difícil emagrecer pois o corpo se adapta à situação", diz Donato Júnior.

Ativando o "modo econômico"
Os pesquisadores desenvolveram camundongos sem receptor de GH para esses neurônios. Quando esses animais ficaram em privação alimentar, o hormônio T4 caiu levemente. No grupo controle, essa queda foi muito mais acentuada.


No caso da testosterona, que ajudar a produzir músculos e dar força, os camundongos sem receptor de GH não tiveram queda desse hormônio, ao contrário do outro grupo. Já os animais controle, durante a privação alimentar, sofreram alterações metabólicas e endócrinas para economizar energia e entrar no "modo econômico".


É a ação do GH nos neurônios AgRP que coordena essas adaptações. Os camundongos sem receptor de GH nesses neurônios perderam peso pois não economizaram energia durante a restrição alimentar.


Questão de sobrevivência
Outra constatação do grupo foi quanto à leptina, secretada pelo tecido adiposo branco. Os níveis dessa proteína nos animais do grupo controle diminuíram com a privação alimentar. Mas em animais sem receptor de GH essa proteína deixou de cair.


"A leptina é um hormônio muito importante para regulação da fome e gasto energético e descobrimos que o GH tem um papel similar. O aumento do GH e a queda dos níveis de leptina são sinais que chegam ao hipotálamo de que o organismo está em privação alimentar, e que deve economizar energia para garantir a sobrevivência", lembra o docente. Ou seja, se um mecanismo falha, o outro assume. Estudos anteriores já haviam mostrado que, quando o organismo começa a perder gordura, o nível de leptina cai e essa queda é um sinal que também é passado ao neurônio AgRP.

Segundo o professor, a pessoa pode ter inúmeras estratégias para perder peso, mas a partir do momento que o organismo percebe que está emagrecendo, ele vai se adaptar. Pois está mais interessado em preservar a sobrevivência do corpo do que eliminar os quilos excedentes. O organismo sempre vê o emagrecimento como algo negativo, mesmo que aquela perda de peso fosse trazer benefícios.


"Na natureza, é muito raro encontrar um animal obeso. Talvez por isso, de alguma maneira, durante a evolução, simplesmente o corpo passou a levar em consideração apenas a perda de peso. Quando detecta isso, ele liga o alerta para o corpo se adaptar e economizar energia. E esse alerta é exatamente esse papel do GH", finaliza.


Fonte de texto: jornal.usp.br

Fonte de imagem: jornal.usp.br