Membro consecutivo no grupo seleto de 29 países que definem o futuro da Antártica, o Brasil passou por dificuldades orçamentárias que quase fizeram pesquisadores brasileiros interromperem seus estudos científicos no local. Isso porque, nos últimos três anos, não foi aberto o edital que repassaria o dinheiro aos especialistas do Programa Antártico Brasileiro (Proantar). Mas, mesmo com esse hiato, cientistas buscam continuar a produção no continente que corresponde a 10% do planeta.

Não é para menos: a Antártica agrega as maiores reservas de água-doce, de gás natural e de petróleo do mundo. E, se as pesquisas brasileiras pararem, o pais perde o direito de decidir o destino desse patrimônio. Mais que isso: perde a chance de formular medicamentos, desenvolver novos pesticidas e fabricar produtos como protetores solares.

Após a destruição da Estação Antártica Comandante Ferraz – decisiva para a formação de centenas de cientistas brasileiros –num incêndio em 2012, a instalação está sendo reconstruída e deve ser inaugurada em março. A abertura desse centro de pesquisas – com a área de 4,5 mil m², quase o dobro da anterior, com mais de 10 laboratórios e capacidade para, em média, 60 pessoas – é um dos fatores que têm dado novo impulso às pesquisas cientificas.

Custeada pelo Ministério da Defesa, a obra nunca foi problema; entre o ano do incêndio e 2017, cerca de R$ 249 milhões foram aplicados e mais R$ 100 milhões devem ser investidos nos próximos anos.

O que preocupa os pesquisadores é justamente o baixo é inconstante investimento direcionado à produção cientifica, que é papel do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC).


Em 2013, o governo da então presidente Dilma Rousseff lançou em edital de R$ 19 milhões para custear as pesquisas cientificas no continente. O dinheiro, como é de praxe, dura três anos, isto é, acabaria em 2015 e implicaria nova chamada de edital prevista para 2016. O problema é que, diferentemente do que os cientistas esperavam, a liberação de verba não ocorreu. E o triênio 2016-2018 ficou sem recursos.

Na avaliação do pesquisador e professor da universidade de Brasília (UnB) Paulo Câmara, que costuma representar a universidade anualmente na Operação Antártica, esse desfalque prejudicou a produção cientifica, que, segundo ele, faz o país correr o risco de perder a posição no topo ranking das nações pesquisadoras da América Latina. "Com a crise e não abertura do edital, o Brasil está perdendo a posição especialmente para o Chile, que tem investido fortemente em pesquisa antártica. Manter esse status é importante para que os cientistas brasileiros sejam mais requisitados, ganhem intercâmbio de tecnologia, publiquem patentes conjuntas e explorem novas áreas", avalia.

Investimento:

Autor de estudo sobre o tema, o técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Israel de Oliveira Andrade afirma que os recursos precisam ser direcionados de forma continua à ciência antártica para, dessa maneira, promover a inserção do país no cenário internacional e desenvolver pesquisas de alta qualidade.

"Percebemos que houve um investimento grande para construção de estação e compra de navios, mas temos de manter a regularidade das pesquisas por meio de editais. Temos cientistas muitíssimo qualificados que estão desenvolvendo pesquisas de alta qualidade com rebatimento no mundo real, em áreas de medicina, agricultura, anticongelantes", explica

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O levantamento produzido por Israel e pela equipe do Ipea, intitulado O Brasil na Antártica: a importância cientifica e geopolítica do Proantar no entorno estratégico brasileiro, mostra que o país investiu quase R$ 500 milhões na Antártica em 10 anos, de 2008 a 2017, e indica que os recursos aplicados no programa foram possíveis devido a parcerias com várias instituições brasileiras, como é o caso da Marinha e da Força Aérea.

Em nota, o MCTIC afirmou que, com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), lançou edital no valor de R$ 18,028 milhões para pesquisas do Proantar no fim do ano passado. Do valor total do edital, R$ 7,1 milhões foram do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (FNDCT) e R$ 3, 704 milhões, do orçamento do MCTIC. O CNPq destinou R$ 1,5 milhão para o edital, enquanto a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) aportou R$5,724 milhões. O montante deve valer para a produção cientifica pelos próximos três anos.



Fonte: Correiobraziliense
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