Há uma conferência de bruxas no local que tem jeitão de estoque, simples, com caixas de escritório feitas de papelão aqui e ali, espalhadas. As bruxas sobrevoam o recinto montadas em suas vassouras, penduradas sobre fios fixados no teto. "São Befanas", explica a mulher pequenina no tamanho, mas gigante na energia, de gestos firmes, cabelo curto, ondulado e grisalho e olhos negros vívidos. As Befanas, bruxas do bem, são figuras festejadas no folclore italiano, de onde a bruxa boa dessa história veio aos 3 anos de idade.

Na madrugada do dia 5 para o dia 6 de janeiro, montada em sua vassoura, com um lenço sobre a cabeça e um xale sobre os ombros, a Befana vai de casa em casa colocando doces no interior das meias deixadas para fora de casa pelos meninos e meninas. Mas só ganham doces os bons ou boas meninas, os de mau comportamento recebem só pedaços de carvão. Marinella Della Negra, a Befana em questão, hoje com 72 anos, é uma das precursoras no atendimento a portadores do vírus HIV e doentes de Aids no Brasil, trabalhando como médica infectologista no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, referência internacional, por mais de 40 anos.

A primeira criança nascida de uma mulher com Aids em São Paulo, no fim de 1985, veio recair sobre seu colo generoso de mãe italiana, para a experiência de cuidados médicos inéditos até então. À época, pouco se sabia da nova epidemia que se propagava entre adultos no mundo e no Brasil e menos ainda da sua relação e impacto sobre as crianças. Marinella foi uma pioneira. Vieram depois outras crianças filhas de mães soropositivas para o HIV da Aids, infectadas já durante a gestação ou durante o parto ou a amamentação. O nome técnico desse modo de contágio é transmissão vertical, direto da mãe para o filho.

Desse trabalho de cuidados pioneiro um outro foi consequência: como muitos dos pais e mães desses meninos e meninas viriam a morrer de Aids, surgiu uma população infantil órfã, sem amparo, sem o mínimo para viver. Surgia em 1989, dentro do Emílio Ribas, a Associação de Auxílio à Criança Portadora de HIV, com médicos infectologistas e profissionais de saúde da chamada "Equipe do 2º Andar", onde trabalhavam. Com recursos de doações e parcerias, pagavam medicamentos, aluguéis, transporte e alimentos (incluindo doces, claro), ofereciam todo tipo de apoio a essas crianças e seus cuidadores. O local onde essa Befana da saúde brasileira está agora nesse fim de manhã paulistana é a sede da associação, que resiste com dificuldade e precisa de recursos para continuar a viver e fazer viver.

Hoje, modificou sua missão inicial e trabalha para garantir o futuro profissional de jovens com HIV positivo, muitos deles antigos conhecidos dos ambulatórios, pagando seus estudos, universitários e técnicos. Os escolhidos já somam mais de 20 e precisam obedecer a certas normas para se beneficiar do auxílio: manter carga viral de HIV indetectável, isto é, seguir o tratamento médico de forma rigorosa; e ter boas notas. São regularmente avaliados sob os olhos argutos da médica. Depois de uma caminhada breve, com passos muito rápidos, do escritório até a porta do local onde diariamente, durante exatos 43 anos, prestou seus melhores cuidados de bruxa boa, sendo reconhecida, saudada e abraçada por muitos e muitos que por ela passam ("Como está linda!", "Que elegância!", elogiam), Marinella, que já viu tanta morte, fala da vida, sempre da vida, mais uma vez. "Não gosto de pensar na morte, mas de pensar na vida. A morte é uma consequência. Minha motivação é lutar pela vida."

Fonte: UOL


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