Um influente painel de especialistas em saúde do governo dos Estados Unidos está retirando sua oposição aos rastreamentos de rotina do câncer de próstata, deixando que os homens decidam por si mesmos que tipos de cuidados tomar, após conversas com seus médicos.

O novo rascunho de diretrizes ecoa as orientações de vários grupos médicos importantes, mas ele não torna a decisão mais fácil para os homens: com a ajuda de seus médicos, eles têm que decidir se farão ou não um exame de sangue para PSA. Tal exame é considerado imperfeito e com uma pequena chance de detectar um câncer mortal, além de significar uma maior probabilidade de desencadear preocupações desnecessárias e tratamentos com efeitos colaterais sérios.

— Esta não é uma recomendação de tamanho único — diz a presidente da Força-Tarefa de Saúde Preventiva dos Estados Unidos, Dra. Kirsten Bibbins-Domingo, médica na cidade de San Francisco, que já segue o conselho e discute os prós e contras potenciais com seus pacientes.

Homens cuja maior preocupação é reduzir suas chances de morrer de câncer às vezes estão dispostos a enfrentar as consequências e escolher o teste.

— Outros homens vão perceber que o provável benefício é pequeno e não estão dispostos a arriscar os danos — disse ela.

O rastreamento de PSA para detectar o câncer de próstata, o tipo de tumor mais comum entre os homens, está entre os temas mais polêmicos da saúde masculina. Tal procedimento envolve simples exames de sangue que podem detectar níveis elevados da proteína que sinaliza o câncer — mas também podem ser causados por problemas menos graves na próstata. O rastreamento pode encontrar tumores que frequentemente não precisam de tratamento porque são muito pequenos e têm um crescimento muito lento para se tornarem mortais.

Os médicos dizem que não há uma boa maneira de dizer quais cânceres precoces podem tornar-se letais. O passo seguinte é muitas vezes a exposição à radiação ou cirurgia para remover a próstata, o que pode levar à impotência e incontinência.

Novas evidências

A Força-Tarefa de Saúde Preventiva dos Estados Unidos diz que sua recente recomendação é baseada em novas evidências indicando que os exames de sangue de PSA rotineiros podem reduzir ligeiramente as chances de alguns homens morrerem de câncer de próstata. Além disso, tratamentos drásticos podem ser evitados com um acompanhamento constante após a detecção de um tumor.

A mudança põe em evidência a orientação do painel de 2012, que levou críticas de alguns urologistas — especialistas que tratam a doença — e irritou pacientes com câncer de próstata certos de que o rastreamento de PSA salvou suas vidas.

A nova diretriz alinha o painel com grupos médicos que também apoiam a tomada de decisão compartilhada. A grande diferença que permanece é o tempo. O painel diz que conversas sobre o rastreamento precoce devem começar aos 55 anos. Outros grupos dizem estas deveriam começar mais cedo, dependendo do histórico familiar de câncer de próstata e de outros fatores. O painel também é contra testagens em homens mais velhos que 70 anos.

O painel deixa em aberto quantas vezes os homens devem ser examinados com PSA. O grupo não recomenda testes mais precoces para negros e aqueles com um histórico familiar, mas afirma que estas pessoas devem saber que seus riscos são maiores.

O Dr. Meir Stampfer, especialista em câncer da Universidade de Harvard, classificou a nova diretriz do conselho de "uma abordagem mais racional". Ele disse que os testes de PSA fazem sentido se não levam a um tratamento excessivamente agressivo. Suas pesquisas sugerem que mais de 1 em cada 5 homens em todo o mundo têm câncer de próstata não detectado, incluindo mais de 40 milhões de americanos, mas que a maioria vai morrer de outras causas.

Ligeiro benefício

A decisão de 2012 da Força-Tarefa contra o rastreamento argumentava que havia pouca evidência de que este procedimento tive eficácia na redução da mortalidade. Desde então, as taxas de rastreamento de PSA no país diminuíram até 10%, e agora menos de um terço dos homens dos EUA fazem os testes. Menos homens estão sendo diagnosticados com a doença em estágio inicial, quando o tratamento é mais eficaz, enquanto mais estão sendo diagnosticados com câncer mais agressivo e mais difícil de tratar.

O painel diz que seu novo conselho deriva de uma pesquisa de longo prazo indicando que, para cada 1.000 homens que fazem o rastreamento de PSA, um a dois terão a morte por câncer de próstata evitada e três não terão o câncer de próstata se espalhando para outros órgãos.

Uma pesquisa mais recente também mostrou benefícios da "vigilância ativa" de homens cujos testes iniciais de PSA e biópsias indicam câncer de crescimento lento, diz a Força-Tarefa. Esta abordagem inclui repetidos testes de PSA e acompanhamento próximo, o que pode atrasar ou mesmo evitar a necessidade de tratamento.

As recomendações do grupo influenciam a política do governo dos EUA e são amplamente seguidas pelos médicos de atenção primária. Ainda assim, a rede pública e privada de saúde continuaram a pagar por rastreamentos. O painel voluntário nomeado pelo governo revisa provas e faz o aconselhamento para uma variedade de exames e tratamentos.

— Parece que as cabeças mais frias prevaleceram — disse o Dr. Jim Hu, um urologista e especialista em câncer de próstata do Centro Médico New York-Presbyterian/Weill Cornell, que chamou o antigo conselho de "draconiano".

As recomendações sobre câncer de próstata, anunciadas no site do periódico Journal of the American Medical Association, estão abertas para comentários públicos no site da Força-Tarefa até 8 de maio. A orientação final virá meses depois, mas as diretrizes do painel ecoam mesmo quando ainda na fase de rascunho.

Fonte e imagem:
O Globo