Cientistas identificaram um mecanismo pelo qual o vírus da chikungunya "sequestra" o maquinário das células infectadas e controla sua replicação, o que afeta a severidade da doença que ele causa. E a estrutura responsável por isso também estaria presente em outras espécies dos chamados alfavírus, como o chikungunya, e do gênero coronavírus, que inclui micro-organismos potencialmente fatais como os da SARS (sigla em inglês para a "síndrome respiratória aguda severa") e da MERS ("síndrome respiratória do Oriente Médio", também na sigla em inglês).

Assim, os pesquisadores esperam que a descoberta abra caminho para o desenvolvimento de novas terapias e até vacinas eficazes não só contra o chikungunya como para uma miríade de outros vírus, o que permitiria aplacar rapidamente pandemias como a atual da doença, que no ano passado atingiu quase 350 mil pessoas só nas Américas, das quais mais de 263 mil no Brasil, de acordo com as últimas estatísticas coletadas pela Organização Pan-Americana de Saúde.

Segundo os cientistas, o mecanismo tem como base a ação de parte da chamada proteína não-estruturante 3 (nsP3), uma das quatro do tipo presentes no genoma dos alfavírus, e cuja função é a menos compreendida entre elas. A estrutura da nsP3, por sua vez, é dividida em três grandes "domínios", sendo que um deles, conhecido como N-terminal, é um chamado "macrodomínio", uma sequência particular de aminoácidos e dobraduras vista em uma ampla gama de organismos, desde unicelulares simples como do reino Archaea até nas células humanas.

Barreira para o ‘suicídio’ celular

E seria justamente este pedaço da proteína, cujo papel é ainda mais misterioso, o responsável por controlar a virulência da infecção pelo chikungunya e outros vírus, apontam os pesquisadores. De acordo com eles, no chikungunya, e provavelmente em outros micro-organismos que o contêm, a atividade deste macrodomínio quebra as ligações entre as proteínas celulares e uma pequena molécula conhecida como ADP-ribose, associada a diversos mecanismos de proteção celular. Desta forma, o vírus impediria, por exemplo, que a célula infectada se "suicidasse", processo conhecido como apoptose, obrigando-a a se transformar uma fábrica de cópias suas.

— Nosso estudo mostrou que a ação desta proteína é fundamental para o controle da replicação e da gravidade da infecção pelo chikungunya — disse Anthony K. L. Leung, professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e líder da pesquisa, publicada na edição de ontem do periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences. — E como esta estrutura também está presente em muitos outros vírus, temos um caminho potencial para desenvolver novos tratamentos e muito necessárias vacinas contra diversas doenças, algumas bem perigosas, como a SARS e a MERS.

Leung explicou que estas possibilidades se dão principalmente pelo fato de que, durante o estudo, ele e sua equipe conseguiram produzir linhagens do chikungunya em que a ação da proteína foi prejudicada, o que afetou a capacidade do vírus de se reproduzir tanto em experimentos com culturas de células na bancada do laboratório quanto em cobaias vivas, no caso, camundongos.

estes, enquanto os animais infectados com versões "selvagens" do vírus morriam em apenas três dias, os contaminados com as linhagens prejudicadas permaneciam vivos mesmo após dez dias. Desta forma, eles demonstraram que quanto pior é a capacidade do macrodomínio em romper as ligações de ADP-ribose, mais branda é a infecção pelo micro-organismo, o que faz da sua ação um promissor alvo para novos remédios antivirais ou um meio para criar vírus atenuados, uma estratégia comum e comprovada para produzir vacinas.

— Os resultados destes experimentos abrem toda uma nova área de investigação sobre como as células combatem a infecção por vírus e como os vírus que provocam doenças severas escapam deste controle — comentou Diane E. Griffin, também professora da escola da Johns Hopkins e coautora da pesquisa.

Diante disso, Leung contou que seu grupo de pesquisas já busca compostos que se mostrem capazes de interferir na atividade do macrodomínio e possam ser usados para combater diversas doenças que classifica como "preocupantes". Entre elas, ele cita como exemplo o vírus Mayaro. Também transmitido por mosquitos em um ciclo similar ao da febre amarela — com um lado "silvícola" cujos vetores são insetos do gênero Haemagogus, mas também um urbano em que os transmissores são mosquitos do gênero Aedes —, alguns cientistas temem que o Mayaro se transforme no "próximo zika".

— Nosso objetivo último é desenvolver este remédio — destacou Leung, ressaltando, porém, que infelizmente o eventual medicamento não seria útil para combater o próprio zika e a dengue, já que ambos estão em diferentes famílias de vírus que não contêm o macrodomínio e, por isso, não usam o mesmo mecanismo para "sequestrar" as células infectadas.

Fonte: O Globo

Foto: Alexandre Cassiano