O conceito de check-up — bateria de exames que tem o objetivo de detectar doenças ainda sem sintomas — foi posto "em cheque" há alguns anos. Em 2012, uma revisão de estudos feita pela Colaboração Cochrane, conceituada entidade britânica especializada em verificar a eficácia de tratamentos médicos, concluiu que check-ups regulares não resultam em diminuição do risco de morte.

Outros pesquisadores, porém, contestam esse resultado e defendem que check-ups voltados para detecção de diabetes e doenças cardiovasculares podem, sim, ter bons resultados. É o caso de um trio de médicos dinamarqueses que, em julho de 2014, publicou uma carta sobre o assunto na revista científica British Medical Journal.

Diante dessa controvérsia, que cuidados uma pessoa pode ter com sua própria saúde enquanto está saudável e como assegurar o diagnóstico precoce de doenças que, detectadas cedo, têm mais chances de cura?

Médico não é só para quando se está doente

As pessoas podem fazer muito pela própria saúde antes de adoecer, diz o médico Rodrigo Lima, da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade (SBMFC). Nesse sentido, o acompanhamento médico é fundamental, segundo ele.

Porém, essa relação não deve se basear apenas em uma lista-padrão de exames, segundo o profissional. "O mais importante na prevenção é considerar a individualidade. Se tenho na minha família um histórico importante de diabetes, os cuidados preventivos vão ser diferentes de outra pessoa. Esse pacotão de check-up não leva isso em consideração e acaba pecando por excesso."

Segundo ele, o ideal seria que a população tivesse como referência um médico generalista (um clínico geral ou médico da família) que estivesse familiarizado com o histórico do paciente. Ele cumpre o papel de orientá-lo quanto ao estilo de vida capaz de prevenir doenças e pode encaminhá-lo para um especialista quando for necessário.

Cuidado com excesso de diagnósticos

Já para o médico César Jardim, cardiologista e responsável pelo Clinic Check-up do Hospital do Coração (HCor), o check-up é uma boa estratégia de prevenção e detecção precoce e doenças e pode ser feito a partir do início da idade adulta, mas recomendado especialmente para pessoas que tenham familiares diretos com diabetes ou problemas cardiovasculares.

"No geral, indicamos para todos porque a doença cardíaca deixou de ser uma doença de idoso ou predominantemente masculina há muito tempo. Não é porque a pessoa não sente nada que está tudo em ordem. A diabetes pode estar no início e não ter sintomas, por exemplo", diz Jardim.

Ele diz que um check-up padrão inclui exames de sangue, urina, fezes, além de exames de imagem, exames para medir a função cardíaca e consultas com especialistas. Os testes devem revelar a presença ou não de diabetes, os níveis de colesterol, ácido úrico, triglicérides e a dosagem de hormônios. São feitos ainda exames para doenças infecciosas como hepatites, sífilis, HIV, entre outras.

No caso das mulheres, o check-up deve incluir exames como o Papanicolau, para detectar lesões precursoras de câncer de colo de útero, e mamografia a partir dos 40 anos. Homens devem checar a próstata também a partir dos 40 anos.

Para Jardim, cabe a uma equipe de médicos verificar os resultados dos exames e avaliar se os resultados devem orientar algum tipo de tratamento ou encaminhamento para especialista. "Muitas vezes nos deparamos com alterações com as quais não é preciso se preocupar."

Segundo os especialistas da Colaboração Cochrane, uma das hipóteses para explicar a baixa eficácia dos check-ups em diminuir a mortalidade é o fato de que muitos diagnósticos se referem a problemas que não levariam a sintomas ou a morte e cujo tratamento, portanto, é desnecessário.

Check-up não é salvo-conduto

O médico Rodrigo Lima lembra, por fim, que ter resultados satisfatórios em um check-up não é um salvo-conduto para que a pessoa continue a ter hábitos nocivos à saúde. "Se o paciente fuma e tem um exame de raio-x que mostra que não tem problema no pulmão, ele pensa ‘ótimo, vou continuar fumando’. Esse papel acaba sendo mais prejudicial", diz.

Ele observa que a maioria das pessoas sabe o que deve fazer para evitar doenças — como fazer exercícios, comer melhor, não fumar —, mas ainda têm dificuldade de colocar o plano em prática.

Fonte: G1

Foto: Science Photo Library