Seu filho já fez, alguma vez na vida, exame de sangue? A análise do sangue — e também das fezes — como rotina para crianças saudáveis não é um consenso entre os especialistas. Uma parte dos pediatras acredita mais no acompanhamento regular do paciente em consultório, deixando a solicitação de um exame laboratorial apenas para situações específicas.

Já outros médicos preferem fazer a pesquisa de alterações no sangue e nas fezes com regularidade, mesmo que não haja evidências clínicas de alguma patologia. O que é melhor? Não existe, claro, uma resposta objetiva. O que vale, acima de tudo, é ter confiança no pediatra do seu filho e se identificar com sua conduta. Além de compreender quais as principais finalidades desses dois testes.

Só em caso de necessidade clara

Se o médico do seu filho raramente (ou nunca) preenche um pedido de exames, ele provavelmente faz parte do grupo de profissionais que acredita que uma boa anamnese, a palpação, o estetoscópio e a balança podem, na ausência de outros sintomas, substituir os exames laboratoriais. Nada de errado com essa maneira de agir. "Os exames de sangue e de fezes não são uma rotina necessária.

Em medicina, sabemos que a clínica é soberana, portanto, se você faz o acompanhamento regular do paciente, e ele se apresenta clinicamente bem, não há necessidade de pedir exames", opina Ana Cristina R. Zollner, pediatra do departamento de pediatria ambulatorial e cuidados primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Para a especialista, exames de sangue e fezes devem ser solicitados apenas quando há suspeita de alguma enfermidade ou se a criança apresenta alguma condição específica — como a obesidade —, que justifique a coleta laboratorial como um recurso de acompanhamento médico.

Com regularidade

No contraponto dessa opinião, há os médicos que valorizam os dados que só podem ser obtidos com a ajuda da análise sistemática de sangue e fezes. "Existe um protocolo americano recente, já seguido por alguns pediatras no Brasil, que recomenda a realização desses exames como rotina em todas as crianças", diz Sylvio Renan Monteiro de Barros, pediatra e autor do livro "Seu bebê em perguntas e respostas — Do nascimento aos 12 meses". Segundo ele, a população que está nascendo agora tem uma perspectiva de longevidade maior: estima-se que alguns irão viver até os 120 anos. Por isso, para ele, os pediatras precisam enxergar longe e estar atentos às alterações no organismo que poderão comprometer a qualidade de vida dessas pessoas na velhice.

Barros defende que o exame de fezes seja realizado anualmente, em todas as crianças: "Alguns médicos optam por prescrever vermífugos para o paciente como uma maneira de garantir a eliminação de possíveis parasitas, mesmo sem saber se eles realmente estão lá. Acontece que esses medicamentos têm efeitos colaterais, podendo causar até problemas neurológicos e infertilidade no futuro", alerta.

O exame de sangue rotineiro, por sua vez, pode fornecer informações importantes para a prevenção de doenças, como as cardiovasculares, a obesidade e o diabetes. "É comum nos surpreendermos, por exemplo, com taxas de colesterol e triglicerídeos alteradas em crianças aparentemente saudáveis", alerta Barros, que costuma pedir, também, a dosagem de vitamina D para todos os pacientes, já que pesquisas mostram que a carência da substância tem aumentado na população brasileira.

Batendo ponto no consultório

De maneira geral, os especialistas concordam, pelo menos, em uma questão. A de que a criança deve visitar o consultório pediátrico com regularidade. Alguns pais, entretanto, negligenciam essa regra. Não por falta de atenção, mas simplesmente porque notam que o filho está saudável, e isso faz com que não se preocupem em levá-lo para uma consulta de rotina. Acabam procurando o pediatra apenas se o pequeno apresentar uma febre, uma dor ou outro sintoma preocupante.

Entretanto, essa não é a conduta recomendável. "O ideal é que haja um pediatra que faça sempre o acompanhamento da criança. No primeiro ano de vida, com consultas mensais; no segundo ano, trimestralmente e, a partir daí, as idas ao médico devem ocorrer uma vez ao ano", diz Ana Cristina. Essas consultas servem, principalmente, para verificar se a criança está crescendo e ganhando peso corretamente. Mas, também, para que sinais clínicos de algum problema sejam observados pelo olhar do profissional, que é, lógico, insubstituível.

Situações que valem os exames

Independentemente das escolhas do pediatra que acompanha seu filho em relação à frequência dos exames, algumas situações ou condições específicas merecem uma investigação por meio de exame de sangue ou fezes. Veja quais são elas:

O exame de fezes pode ser útil:

• Se houver suspeita de vermes, com sintomas como dor de barriga, alteração nas fezes, coceira na região do ânus, emagrecimento e fraqueza.

• Se você observar gordura, sangue ou qualquer outra alteração nas fezes do seu filho. Relate ao pediatra para que ele solicite um exame, pois esses sintomas podem estar relacionados a diversas doenças.

• No caso do pediatra desconfiar de alguma doença crônica, que justifique a pesquisa de substâncias específicas nas fezes. Vale dizer que essa situação é muito rara.

O exame de sangue pode ser útil:

• Quando a criança está obesa ou com sintomas de diabetes. O médico deve pedir a dosagem de colesterol, triglicerídeos e glicemia de jejum. Principalmente se houver histórico familiar dessas doenças.

• Para confirmar a suspeita de anemia, especialmente em crianças pequenas, nas quais a falta de ferro é relativamente comum.

• Para mensurar outros minerais e vitaminas, sempre que houver a desconfiança por parte do médico da carência desses elementos. Particularmente se a criança tem dificuldade de ganhar peso.

• Nos momentos em que a criança apresentar quadro infeccioso, com febre, dor, manchas pelo corpo ou qualquer outro sinal de que pode haver uma infecção. Um hemograma simples, que faz a contagem dos componentes das séries vermelha e branca e das plaquetas, já pode fornecer dados importantes para o médico saber o que está acontecendo.

• Se houver a suspeita de uma patologia grave, como leucemia e doença celíaca (intolerância ao glúten). Na hipótese do exame acusar algo mais sério, o pediatra poderá encaminhar o paciente a outro especialista.

Fonte: Crescer

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