A sepse, também conhecida como septicemia ou infecção generalizada, é um conjunto de manifestações inflamatórias graves, que ocorrem em todo o organismo em decorrência de um processo infeccioso comprovado. Na prática, a pessoa adquire uma infecção na comunidade ou no hospital e não responde bem ao tratamento com antibióticos, seja porque a terapêutica não foi feita ou seguida de modo adequado, seja porque os microrganismos se tornaram resistentes ao medicamento utilizado. Sem que tenham sido combatidas, portanto, as bactérias ganham a circulação de maneira contínua ou intermitente. Com isso, o organismo começa a apresentar uma reação inflamatória inespecífica e sistêmica, ou seja, vários órgãos são afetados.

A existência dessa síndrome caracteriza a sepse, que pode evoluir rapidamente para uma forma mais grave, já com reflexos à função dos órgãos, e para o chamado choque séptico, com queda importante da pressão arterial e má oxigenação de células e tecidos. Nesse ponto, o funcionamento geral do corpo fica comprometido e não pode ser mantido sem a intervenção de aparelhos e medicamentos — e mesmo assim com alto risco de falência múltipla de órgãos. A sepse permanece como um desafio médico, uma vez que a taxa de mortalidade em geral é alta e depende de vários fatores, tais como idade, doenças subjacentes, presença de traumas físicos associados e, especialmente, da estrutura da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) onde o paciente está sendo tratado. Apesar desse curso rápido, há muito que fazer para conter a infecção, desde que o doente receba cuidados médicos intensivos a tempo.

Causas e sintomas

A sepse é causada por infecções graves, tanto as adquiridas na comunidade, particularmente as que envolvem pulmões, vias urinárias, abdome, pele e coração, quanto as contraídas no ambiente hospitalar. Neste último caso, os processos infecciosos ocorrem por uma variedade de situações, entre as quais se destacam procedimentos cirúrgicos em regiões mais suscetíveis — como os intestinos —, uso prolongado de dispositivos que permanecem em contato com a pele e a corrente sanguínea de uma pessoa — a exemplo de cateteres e sondas —, eventuais falhas nos processos de limpeza e esterilização de artigos médico-hospitalares e até mesmo falta de adoção das práticas universais de limpeza e desinfecção por parte da equipe de saúde.

Há, porém, um grupo mais suscetível a desenvolver a sepse, formado por bebês prematuros, crianças com menos de 1 ano de idade, pessoas com mais de 65 anos de idade, usuários crônicos de drogas e álcool, indivíduos desnutridos, vítimas de traumatismos, queimaduras, acidentes automobilísticos e ferimentos à bala, pacientes hospitalizados por períodos prolongados e indivíduos com o sistema imunológico deprimido por doenças e tratamentos, como transplantados e portadores de câncer, aids e doenças crônicas.

A evolução do quadro clínico da sepse depende do local onde iniciou a infecção, da presença de outras doenças concomitantes, da idade da pessoa, do grau da resposta inflamatória, do comprometimento causado aos órgãos e até do momento do diagnóstico. De qualquer modo, os principais sintomas incluem febre ou temperatura corporal muito baixa, calafrios, falta de apetite, dores musculares, batimentos cardíacos acelerados, respiração rápida, pressão arterial baixa, volume reduzido de urina, surgimento de feridas e sangramentos, irritabilidade e alterações do nível de consciência.

Diagnóstico

O diagnóstico da sepse quase sempre é clínico e laboratorial. Muitas vezes, o foco da infecção inicial pode ser identificado com base no exame físico e na história de saúde da pessoa — é o caso, por exemplo, do indivíduo que está recebendo tratamento para pneumonia e, de repente, começa a apresentar febre novamente. Quando não é possível localizar de imediato a origem do processo, geralmente se recorre a algum método de imagem para fazer essa pesquisa, como a ultrassonografia e a tomografia.

Qualquer que seja o caso, a investigação não prescinde da realização de alguns exames de sangue, entre eles o hemograma, que confirma o processo inflamatório ao revelar alterações no número dos glóbulos brancos, a dosagem de lactato, que pode indicar a má oxigenação de células e tecidos do corpo, e, finalmente, a hemocultura, que é capaz de isolar o microrganismo envolvido na sepse para direcionar a terapêutica. Contudo, nem sempre o agente infeccioso aparece na cultura, seja por causa do antibiótico administrado para a infecção original, seja por conta do modo de coleta, seja por não haver continuamente bactérias na circulação. Assim, outras culturas podem ser necessárias, como as da secreção expelida pelos pulmões, de urina, de eventuais feridas de pele e mesmo das partes do cateter endovenoso que mantenham contato com o doente.

Tratamento

O tratamento tem de ser feito em UTI e obrigatoriamente deve combinar o uso de antibióticos por via endovenosa com um amplo e agressivo suporte, baseado em medicamentos e aparelhos, para restabelecer as funções do organismo e manter os sinais vitais do indivíduo em níveis adequados — temperatura corporal, batimentos cardíacos, pressão arterial e respiração. Uma vez que a taxa de mortalidade na sepse é elevada, os médicos tomam as providências terapêuticas antes mesmo de conhecer o microrganismo responsável pela infecção, inicialmente com antimicrobianos de amplo espectro, ou seja, capazes de eliminar diversas bactérias. Oportunamente, quando os resultados das culturas ficam prontos, é possível introduzir um antimicrobiano mais específico para combater o agente encontrado, se necessário.

A prevenção da sepse exige esforços individuais e coletivos para evitar infecções, sejam elas quais forem. No ambiente hospitalar, as medidas preventivas passam particularmente pela observação rigorosa das práticas universais de limpeza e desinfecção por parte da equipe de saúde e pela garantia de segurança nos processos de esterilização de artigos médicos e instrumentais. Já na comunidade, a redução do risco de infecções evidentemente requer a manutenção de bons hábitos individuais de higiene e saúde — desde lavar as mãos antes das refeições até dormir bem —, mas também depende da manutenção de uma boa qualidade de vida da população, com moradias adequadas, rede de esgoto e saneamento e acesso aos serviços médicos, só para citar itens básicos.

Fonte: Fleury Medicina e Saúde

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