Em fevereiro deste ano, o legislativo britânico aprovou uma lei permitindo a geração de embriões com DNAs de três pessoas diferentes. O objetivo é deixar que mães com mutações maléficas em seu DNA mitocondrial não as transmitam para o filho. Segundo a lei, durante a reprodução assistida, essa parte de seu genoma poderá ser substituída pelo de uma doadora, gerando uma criança saudável. Assim, a Grã-Bretanha se tornou o primeiro país a permitir a manipulação genética em células germinais humanas.

Apesar do objetivo puramente médico, a decisão está sendo saudada por alguns pesquisadores como um estágio importante de um longo percurso que pode trazer consequências radicais para a ciência e a humanidade. São os defensores do transumanismo, que propõem a aplicação dos avanços obtidos em áreas chaves da ciência, como a genética, a nanotecnologia e a neurociência, para romper os limites impostos ao homem por seu próprio corpo biológico. "A Grã-Bretanha também foi o primeiro país a introduzir a fertilização in vitro em 1979. Essa decisão é apenas outro passo desse processo", diz o filósofo Steve Fuller, professor da Universidade de Warwick, na Inglaterra. Ele é autor dos livros Humanidade 2.0 e O Imperativo Proativo (inéditos em português), nos quais se propõe a estabelecer as bases teóricas e filosóficas para o transumanismo.

O objetivo desse movimento é utilizar a ciência para aumentar as capacidades físicas, intelectuais e até emocionais dos seres humanos. Ele busca, no limite, estender a vida humana indefinidamente, extirpando dela todo tipo de sofrimento. Os transumanistas defendem, por exemplo, a manipulação genética de embriões para eliminar doenças e escolher características vantajosas para os filhos, a criação de implantes neurais que permitam a interação com computadores pelo pensamento, e o uso de drogas capazes de manipular o cérebro humano, melhorando sua cognição, memória, concentração e humor.

"Mesmo que esses projetos pareçam vindos da ficção científica, eles podem ser encarados como soluções a longo prazo para problemas atuais. Temos visto, por exemplo, investimentos cada vez maiores em projetos que pretendem estender o nosso tempo de vida", diz Fuller.

A evolução no laço – Segundo seus defensores, as raízes do movimento estão fincadas no passado ancestral do homem, quando ele começou transformar a si mesmo e ao ambiente que o cerca para vencer os limites impostos pela natureza. "A história da tecnologia e da medicina constituem a pré-história do transumanismo", diz Fuller. Para o filósofo, a humanidade vive uma nova etapa de sua história, em que não está mais submetida aos princípios da seleção natural: "Enquanto todas as outras espécies obedecem cegamente a evolução, nós somos os únicos a saber o que obedecemos. Isso nos dá capacidade – e talvez a obrigação – de dirigi-la".

Essa visão que diferencia o homem de todos os outros animais afasta os transumanistas do Darwinismo, e os aproxima das religiões abraâmicas, como judaísmo, cristianismo e islamismo. "Darwin acreditava que a seleção natural colocava os seres humanos junto com as várias outras espécies, todas destinadas a se extinguir cedo ou tarde. Já a excepcionalidade humana foi primeiramente identificada por essas religiões, para as quais o homem é feito à imagem e semelhança de Deus", diz.

Fonte: VEJA

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