As autoridades sanitárias dos Estados Unidos alertaram nesta terça-feira (31) que estão tentando localizar todas as pessoas que tenham tido contato com uma paciente diagnosticada com uma bactéria mutante ultrarresistente aos antibióticos.

Os pesquisadores tentam descobrir como essa paciente do estado da Pensilvânia, de 49 anos, que não viajou recentemente ao exterior, contraiu uma variedade da bactéria Escherichia coli, mais conhecida pela abreviatura "E. coli", que lhe causou uma infecção urinária persistente.

Bactéria contraída é portadora do gene MCR-1, que a torna resistente à colistina, o antibiótico utilizado como último recurso nos casos de polirresistência.

A bactéria reagiu, porém, a um tratamento com carbapenema, outro antibiótico de amplo espectro.

Esta é a primeira vez que este tipo de gene foi identificado em uma bactéria encontrada em um ser humano infectado nos Estados Unidos, embora já tenham sido registrados casos semelhantes na Europa e na China.

Com uma taxa de mortalidade que pode chegar a 50%, as bactérias com este gene mutante são consideradas pelos Centros de Controle de Doenças dos Estados Unidos como uma das maiores ameaças à saúde pública.

O mundo está no liminar de uma "era pós-antibiótico" alertam cientistas após a descoberta de bactérias resistentes a medicamentos da última linha de defesa humana contra infecções.

Um estudo divulgado na revista científica Lancet identificou, em pacientes e animais na China, bactérias que resistem à colistina, um potente antibiótico.

Os autores concluem que essa resistência pode se espalhar pelo mundo, trazendo consigo a ameaça de infecções intratáveis.

Especialistas afirmam que esse desdobramento precisa ser visto como um alerta mundial.

Se bactérias se tornarem completamente resistentes a tratamentos - o chamado "apocalipse antibiótico" -, a medicina pode ser lançada novamente em uma espécie de Idade Média.

Infecções comuns voltariam a causar mortes, enquanto cirurgias e tratamentos de câncer, que apostam em antibióticos, ficariam sob ameaça.

Mutação

Cientistas chineses identificaram uma mutação genética, denominada gene MCR-1, que permite às bactérias se tornarem altamente resistentes à colistina (também conhecida como polimixina), antibiótico geralmente usado como último recurso no caso de ineficácia de medicamentos.

Ela foi encontrada em um quinto dos animais testados, 15% de amostras de carne crua e em 16 pacientes.

E a resistência se espalhou por um leque de cepas e espécies de bactérias, como E. coli, Klebsiellapneumoniae e Pseudomonasaeruginosa.

Também há evidências de que a resistência já chegou ao Laos e à Malásia.

O colaborador do estudo Timothy Walsh, da Universidade de Cardiff, afirmou à BBC: "Todos os atores chave estão agora em campo para tornar o mundo pós-antibiótico uma realidade. "Se o MRC-1 se tornar global, o que é uma questão de tempo, e se o gene se alinhar com outros genes resistentes a antibióticos, o que é inevitável, então teremos provavelmente chegado ao começo de uma era pós-antibiótico.

"E se nesse ponto um paciente estiver gravemente doente, por exemplo, com E. coli, não haverá praticamente nada a se fazer."

A resistência à colistina já havia sido detectada antes.

Contudo, a diferença desta vez é que a mutação surgiu numa forma em que é facilmente compartilhada entre bactérias."A taxa de transferência desse gene de resistência é ridiculamente alta, e isso não é bom", disse o microbiologista Mark Wilcox, do centro de hospitais universitários de Leeds, na Inglaterra.

O centro de Wilcox agora está lidando com inúmeros casos por mês em que "lutam para encontrar um antibiótico" - algo que há cinco anos seria muito raro, ele diz.

Para o microbiologista, não houve um evento a marcar o começo do "apocalipse antibiótico", mas está claro que "estamos perdendo a batalha".

'Intratável'

A preocupação é que o novo gene da resistência se associe a outros que assolam hospitais, produzindo bactérias resistentes a todos os tratamentos, o que é conhecido como pan-resistência.

"Se eu temo que chegaremos a uma situação de um organismo intratável? Basicamente, sim. Se acontecerá neste ano, no outro ou no seguinte, é muito difícil dizer", afirmou Wilcox.

Há sinais de que o governo chinês está agindo de forma rápida para combater esse problema.

Walsh, da Universidade de Cardiff, terá encontros com os ministros da Agricultura e da Saúde da China para discutir um eventual banimento da colistina para uso na agricultura.

A professora Laura Piddock, do grupo de ativismo britânico AntibioticAction, disse que esse mesmo antibiótico "não deveria ser usado em saúde humana e animal".

"Espero que a era pós-antibiótico ainda não tenha chegado. Mas esse é um alerta para o mundo."

Ela diz considerar que a chegada dessa era "depende da infecção, do paciente e se há tratamentos alternativos disponíveis", pois combinações de antibióticos ainda poderão ser efetivas.

Um comentário feito ao artigo da revista científica Lancet aponta que as implicações do novo estudo são "enormes", e a menos que haja mudanças significativas, médicos irão enfrentar "um número crescente de pacientes para os quais teremos que dizer: 'Desculpe, não há nada que eu possa fazer para curar sua infecção'".

Fonte: Globo

Fonte da imagem: Google