Depois que a contaminação de alimentos se tornou a principal forma de transmissão da doença de Chagas no Brasil, muitas pesquisas passaram a ter como alvo esse tipo de infecção. No entanto, o protocolo mais usado nos estudos de infecção oral realizados com animais pode estar longe de reproduzir o que ocorre no corpo humano — pelo menos, mais longe do que os cientistas acreditavam até agora.

Liderado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), um artigo pioneiro publicado na revista internacional Plos Neglected Tropical Diseases aponta que a inoculação de parasitos diretamente no estômago de camundongos — usados como modelo para o estudo da infecção — tem um resultado muito diferente da ingestão dos patógenos pela boca. "Quando os parasitos entram pela cavidade oral, a doença é muito mais grave. É uma resposta tão diferente que nos levou a pensar sobre 'uma nova forma de uma doença antiga', como sugerimos no título do trabalho", diz a coordenadora do estudo, Juliana de Meis, pesquisadora do Laboratório de Pesquisa sobre o Timo do IOC.

A comparação entre as duas formas de infecção mostrou diferenças desde os primeiros experimentos. Após a inoculação de parasitos no estômago, cerca de 50% dos animais apresentaram patógenos na corrente sanguínea, ou seja, foram de fato infectados. Já no caso da administração pela boca, a taxa de infecção chegou a quase 100%.

"Além da parasitemia (presença de patógenos no sangue), a taxa de mortalidade maior no grupo infectado pela via oral chamou nossa atenção imediatamente", conta a primeira autora do artigo, Juliana Barreto de Albuquerque, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do IOC sob orientação da pesquisadora Juliana de Meis.

Após estes resultados, os cientistas decidiram investigar se haveria diferenças entre os principais órgãos afetados pela doença de Chagas e as características da resposta imunológica em cada uma das formas de infecção. Eles encontraram discrepâncias em praticamente todos os critérios avaliados.

Embora tivessem um número maior de parasitos no sangue, os camundongos infectados pela via oral apresentavam menos danos cardíacos. Ao mesmo tempo, o fígado era mais afetado pela doença e havia índices mais altos de uma molécula inflamatória, chamada TNF, circulando na corrente sanguínea. "Os resultados nos fizeram sugerir que a lesão cardíaca não é a principal causa da alta mortalidade observada entre os animais infectados pela via oral. Estes óbitos parecem estar ligados ao altos níveis de moléculas pró-inflamatórias, que podem danificar os órgãos e levar à morte", explica Juliana Barreto.

O trabalho foi desenvolvido em parceria com pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, e da Universidade Nacional de Rosario, na Argentina. No IOC, além do Laboratório de Pesquisa Sobre o Timo, participaram o Laboratório de Biologia Molecular e Doenças Endêmicas e o Laboratório Nacional e Internacional de Referência em Taxonomia de Triatomíneos.

Mesmos personagens, novo cenário

O fato de que a via de infecção pode alterar a intensidade e as manifestações da doença de Chagas já é alvo de debate entre os cientistas há algum tempo.

A forma clássica de transmissão do agravo ocorre através de um inseto conhecido como barbeiro, que é infectado pelo parasito Trypanosoma cruzi ao sugar o sangue de pessoas ou animais doentes. O barbeiro contaminado propaga a infecção da seguinte forma, ao picar um novo indivíduo, ele defeca e elimina parasitos nas fezes. Estes patógenos entram na corrente sanguínea das pessoas quando elas coçam a picada e acabam promovendo o contato das fezes do barbeiro com a área ferida da pele. Por décadas, foi desta forma que a doença de Chagas se espalhou no Brasil. Apenas nos anos 1970, ações de controle como o uso de inseticidas e a melhoria das condições habitacionais conseguiram interromper este ciclo.

No entanto, nos últimos anos, o país passou a registrar surtos de quadros agudos de Chagas em diferentes estados, principalmente na região amazônica. A importância da transmissão oral da infecção foi constatada nestas situações. Destacado na mídia, o consumo de sucos batidos, como o de açaí, ou do caldo de cana foi identificado em diversos casos como origem da doença, porque barbeiros são triturados acidentalmente junto com as bebidas.

Autora de estudos desenvolvidos no Pará em colaboração com pesquisadores do Laboratório de Doenças Parasitárias do IOC, Juliana de Meis lembra ainda outros focos de infecção. "O mesmo se passa com diferentes frutos populares na Amazônia. Além disso, animais silvestres doentes podem transmitir o parasito para pessoas que comem carne de caça", enumera.

Hoje, mais de 70% dos casos agudos de doença de Chagas no Brasil são resultado da transmissão alimentar, e esse novo padrão vem se refletindo na apresentação clínica do agravo. Artigos científicos recentes relatam que os pacientes infectados pela via oral desenvolvem quadros mais graves logo após a infecção, com sintomas como edema de face, hemorragia e dor abdominal, além do comprometimento do coração, que também ocorre na forma clássica da doença.

Alerta para pesquisas

Se as diferenças entre as duas formas de disseminação da doença em pacientes são claras, o artigo recém-publicado alerta para uma distinção praticamente ignorada nos estudos até agora.

Quase todas as pesquisas sobre infecção oral utilizam a via gástrica como forma de inoculação do parasito em modelos animais. No entanto, segundo Juliana de Meis, é preciso observar que 'colocar um parasito no estômago não é necessariamente uma forma de mimetizar uma infecção que começa na boca'. "Parte-se do princípio de que o patógeno entra por via oral, é engolido e vai para o estômago. Mas, muitas vezes, o que parece óbvio não é", pondera a pesquisadora, acrescentando que esta avaliação pode ser importante também no estudo de outras patologias com transmissão semelhante.

Após os resultados do trabalho, novos experimentos estão em andamento no Laboratório de Pesquisa sobre o Timo do IOC com objetivo de investigar por que as vias de infecção oral e gástrica resultam em quadros tão diversos da doença de Chagas nos modelos animais. Para os cientistas, uma das hipóteses é que o local inicial do contato com o parasito possa influenciar no tipo de resposta imunológica desencadeada no organismo e, consequentemente, na evolução da enfermidade.

Fonte: Fundação Oswaldo Cruz — Ministério da Saúde