Cientistas americanos criaram em laboratório insetos com genes que bloqueiam a ação da doença, usando a CRISPR/Cas9, uma técnica revolucionária de edição de DNA. Contudo, ainda são necessários testes com os insetos antes de soltá-los na natureza.

Cientistas americanos criaram em laboratório centenas de mosquitos geneticamente modificados incapazes de transmitir malária. Usando uma técnica revolucionária, chamada CRISPR/Cas9, os pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, inseriram nas células reprodutivas dos insetos Anopheles stephensi (que transmitem a doença na Ásia e são responsáveis por mais de 10% dos casos na Índia), genes que bloqueiam a ação da doença. Assim, cruzando com outros membros da espécie, esses mosquitos geram descendentes que não transmitem a malária e que poderiam combater a doença que atingiu 214 milhões de pessoas em 2015, causando 438 000 mortes.

O estudo foi publicado na edição desta terça-feira (24) do periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas). De acordo com os cientistas, os insetos modificados passaram a produzir anticorpos bloqueadores que foram repassados para 99,5% da prole, um imenso sucesso. Para conseguir identificar quais mosquitos carregam o gene bloqueador, os pesquisadores ligaram a esse gene um outro, que dá aos mosquitos olhos vermelhos fluorescentes.

O objetivo da pesquisa é que esses mosquitos possam, no futuro, ser soltos na natureza para acasalarem com os mosquitos selvagens. Assim, os genes de bloqueio poderão entrar na cadeia e, eventualmente, cobrir toda a população do inseto, anulando a capacidade das espécies de infectar as pessoas com o parasita Plasmodium falciparum, que causa a malária.

"Linhagens baseadas nessa tecnologia podem sustentar o controle e a eliminação como parte das ações de erradicação da malária", escrevem os autores no estudo.

Edição genética - Apesar de o resultado ter sido bastante positivo, os autores do estudo afirmam que é preciso cautela, pois o procedimento ainda precisa ser aperfeiçoado para funcionar fora dos laboratórios. Antes de liberarem os mosquitos transgênicos na natureza, são necessários testes com os insetos para que não aconteça nenhum imprevisto que cause desequilíbrios ecológicos.

Grande parte da preocupação está ligada à técnica que a equipe norte-americana usou para editar os mosquitos. A CRISPR/Cas9 ganhou fama em 2013 e foi usada com sucesso no ano seguinte para criar macacos transgênicos. Esse método possibilita que partes do genoma sejam recortadas, deletadas e substituídas como se fossem arquivos digitais de computadores. O sistema usa moléculas de RNA como guias que levam os cientistas até as sequências específicas do DNA que precisam ser modificadas. Por usar esse princípio, ele é o mais simples, preciso e eficiente editor de genomas já desenvolvido.

Entretanto, as pesquisas em modelos animais sugerem que usar o método nesses tipos de células levaria a mutações inesperadas em várias outros trechos do genoma - o que foi comprovado por um estudo chinês com genes de embriões humanos. A CRISPR/Cas9 ainda não é tão segura ou eficiente a ponto de ser testada de forma ampla. Além disso, há a preocupação ética de que intervir em estágios iniciais do desenvolvimento de espécies possa trazer consequências desconhecidas para as gerações futuras.

Em agosto, um grupo de pesquisadores publicou na Science um artigo pedindo cautela com a criação e liberação de organismos geneticamente modificados - um dos autores desse artigo, Anthony A. James, é um dos principais autores do novo estudo sobre o vetor da malária.

A doença - A malária é uma doença infecciosa propagada pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada por protozoários do gênero Plasmodium, transmitidos ao homem pelo sangue. É raro, mas a transmissão também pode ocorrer quando o sangue de uma pessoa infectada entra em contato com o de outra sadia, em situações como o compartilhamento de seringas, transfusão de sangue ou até mesmo de mãe para feto, na gravidez. A doença, que tem como principal sintoma a febre alta, tem tratamento.

Fonte: Veja