Estudo descreve dois casos de pacientes em que o vírus ficou inativo após uma alteração em seu gene, que levou à integração às células humanas. Os cientistas acreditam que a cura para a aids pode vir da integração do vírus ao DNA humano, que gera uma resistência transmissível aos descendentes.

Cientistas franceses descreveram um fenômeno natural através do qual eles acreditam que dois homens foram curados da infecção pelo vírus HIV. A pesquisa foi publicada nesta terça-feira no periódico Clinical Microbiology and Infection e pode abrir caminho para uma nova estratégia de combate à aids.

Os dois pacientes, que jamais se submeteram a tratamentos, estavam infectados com o HIV sem terem apresentado sintomas ou uma quantidade detectável de vírus no sangue. Segundo os autores do estudo, o vírus ficou inativo devido a uma alteração em um gene do HIV, que se integrou às células humanas.

Eles acreditam que esse processo foi causado pela ação de uma enzima, que pode no futuro ser estimulada com medicamentos para produzir a mesma resposta em mais pacientes. "Esta observação é muito interessante e pode representar um caminho para a cura", explicou Didier Raoult, professor da Faculdade de Medicina de Marselha, na França, e coautor do estudo.

Um dos pacientes foi identificado como soropositivo há 30 anos, e o outro em 2011. Nenhum deles apresentava outros fatores de resistência ao HIV conhecidos, como mutações na proteína CCR5, que permite ao HIV infectar as células.

Mecanismo genético - Os pesquisadores mostraram que o HIV foi inativado por um sistema de interrupção da informação fornecida pelos genes do vírus. O sistema marca o fim da tradução de um gene em proteína. O vírus torna-se incapaz de se multiplicar, mas permanece presente no DNA dos pacientes. Estas interrupções se devem a uma enzima conhecida, a Apobec, que faz parte do arsenal disponível nos seres humanos para combater o vírus, mas normalmente é desativada por uma proteína do HIV.

Os cientistas acreditam que a cura para a aids pode vir da endogenização, a integração do vírus ao DNA humano, que gera uma resistência transmissível aos descendentes. Um fenômeno semelhante foi observado em coalas. Um vírus de macaco, causador de câncer e leucemia, já não os faz adoecer após a integração e neutralização do vírus em seu genoma, diz Raoult.

Para os pesquisadores, trata-se de um mecanismo provavelmente comum em epidemias anteriores. Portanto, pode-se pensar que ocorre a um certo número de pessoas infectadas com o vírus da aids.

(Com Agência France-Presse)

Fonte: Veja