Pesquisa realizada pela Unicamp (SP) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de Manguinhos (RJ), criou uma nova forma de diagnóstico para a hanseníase, historicamente conhecida como lepra e cujos registros datam de cerca de três mil anos. No lugar da tradicional biópsia, procedimento invasivo e desconfortável para o paciente, a biomédica Estela de Oliveira Lima criou um teste sem cortes, rápido e barato.

Uma plaqueta de sílica de um centímetro quadrado é sobreposta à pele e levemente pressionada por um minuto.Tempo suficiente para que o material absorva as substâncias presentes na superfície e que depois são analisadas por um espectrômetro de massas de alta resolução (converte em sub-produtos, como fragmentos moleculares). O trabalho foi publicado na edição de março da revista científica Analytical Chemistry.

A descoberta aconteceu "sem querer". Estela contou que o grupo fazia análises da composição de cosméticos fotoprotetores aplicados na pele, usando o mesmo equipamento. E observou que a sílica absorvia tanto moléculas do protetor quanto da própria pele. Assim surgiu a ideia de testar a placa na absorção de moléculas em doenças de pele.

Brasil não erradicou doença

Atrás da Índia, o Brasil é o segundo país no mundo com o maior número de pessoas doentes. Com alta taxa de incidência, não conseguiu atingir a meta da Organização Mundial de Saúde que preconiza um caso a cada dez mil habitantes. Nem deverá erradicá-la em 2015, conforme havia sido divulgado em 2012.

Segundo balanço do Ministério da Saúde, a taxa de prevalência da doença no Brasil subiu de 1,42 casos para cada 10 mil habitantes (em 2013) para 1,56 casos para cada 10 mil habitantes (em 2014).

No ano passado, o Brasil registrou 24.612 casos novos de hanseníase. Ao todo, em 2014, havia 31.568 pessoas com hanseníase em tratamento no Sistema Único de Saúde (com taxa de cura de cerca de 85%).

Ao analisar os últimos dez anos, a taxa de incidência, porém, caiu 68%: passou de 4,52 (em 2003) para 1,42 por 10 mil habitantes (em 2013).

A hanseníase, que atinge principalmente as classes econômicas menos favorecidas, nas regiões Norte e Nordeste, é uma doença infectocontagiosa de evolução crônica, que se manifesta principalmente por lesões cutâneas, com a diminuição da sensibilidade térmica, dolorosa e tátil.

Essas manifestações acontecem por causa da bactéria Mycobacterium leprae, principalmente nas células cutâneas e nervos periféricos (preferencialmente sobre a pele e regiões mais frias do corpo como dedos, orelhas e nariz).

No início, leva ao surgimento de manchas brancas, que podem ou não apresentar perda de sensibilidade e evoluem para a formação de lesões. Nos casos mais graves (com maior carga bacteriana), a própria reação inflamatória que combate a bactéria leva à destruição dos tecidos e à atrofia das extremidades.

— Como existem outras doenças de pele que também se manifestam como uma mancha esbranquiçada, o seu diagnóstico inicial pode ser complicado — pondera Estela, que afirma ainda que a biópsia não é eficiente nos casos de doença mais branda ou em seu estágio inicial.

— Também existe o diagnóstico clínico, que em grande parte dos casos consegue fazer a identificação. Mas para os casos mais leves, em que o indivíduo apresenta baixa carga bacteriana e os sinais se apresentam como despigmentação da pele, a doença pode ser confundida com outras doenças de pele. Além dessas formas de diagnóstico, outras estão em estudo também, mas ainda não estão disponibilizadas para uso na saúde pública, principalmente devido ao alto custo.

Além disso, Estela explicou que o custo da placa de sílica gira em torno de US$ 1,00.

— O método em si que nós desenvolvemos é de baixíssimo custo, mas o espectrômetro de massas é um equipamento de alto custo. Ainda não é comum em todos os laboratórios, mas sugerimos que inicialmente as análises possam ser centralizadas em um laboratório que tenha o equipamento.

Pesquisa

Após aplicar a plaqueta de sílica na pele do paciente, ela foi depositada em um tubo com metanol (álcool de estrutura mais simples), que dissolve as substâncias adsorvidas da pele. Com uma seringa, o líquido foi transferido para um espectrômetro de massas de alta resolução, onde são caracterizadas as moléculas presentes.

Este procedimento permitiu, em cerca de cinco minutos, identificar marcadores lipídicos em pacientes da hanseníase a partir de "imprint" de pele.

Foram selecionados dois grupos: um de indivíduos saudáveis e outro com portadores de hanseníase na sua forma mais avançada, com múltiplas lesões. Nestes pacientes, foram coletadas amostras com a plaqueta de sílica diretamente aplicada sobre lesões e também sobre a pele que não apresentava ferimentos.

A análise dos espectros permitiu estabelecer a comparação entre as moléculas presentes no grupo sadio e no doente e, ainda, entre a pele lesionada e a não lesionada dos pacientes doentes.

Nos casos dos doentes, independentemente da amostra colhida (área lesada e área não lesada), foram identificados o mesmo padrão de moléculas que indicam resposta inflamatória, morte celular e também duas moléculas especificas do Mycobacterium.

Estes resultados mostram que o método permite identificar esses dois marcadores lipídicos presentes nos tecidos do indivíduo com hanseníase, mesmo na pele não lesionada, nos casos mais graves da doença.

O método proposto pelos pesquisadores tem potencial para permitir identificar a presença de moléculas da bactéria na superfície cutânea mesmo quando ainda não tenham se estabelecido lesões. E isso é fundamental já que a doença é transmitida pelas secreções de vias aéreas mas também pelo contato com as lesões.

Doença tem cura

Quanto mais cedo se descobre a doença, mais cedo se inicia o tratamento, evitando as lesões. A doença tem cura e o tratamento é feito com antibióticos.

Além disso, o diagnóstico precoce pode ser a chave para erradicar a doença no país e também evitar lesões graves, que causam mutilações.

— Quando o indivíduo está infectado mas não sabe, ele se torna um foco de transmissão da bactéria, podendo contaminar aqueles que convivem com ele. Por se tratar de uma doença que demora a se manifestar (de seis meses a seis anos), esses indivíduos, se infectados, também se tornam focos de transmissão e não sabem. Isso cria uma cadeia de transmissão da doença que pode ser quebrada, se a hanseníase for identificada e tratada precocemente.

O próximo passo do estudo, que os pesquisadores já iniciaram, é a validação do método para todas as manifestações da hanseníase, particularmente para 30% dos casos em que o paciente não apresenta manifestações típicas.

— Podemos considerar que o método funciona para casos de grande carga bacteriana e que se mostra aparentemente de grande potencial de eficiência para outras situações, embora não tenha sido testado ainda quando a carga bacteriana é mais baixa — ponderou Estela.

O orientador do grupo, o professor Rodrigo Ramos Catharino, esclareceu que, mesmo nos casos mais graves, essa metodologia não tinha ainda sido aplicada, pois a biópsia sempre se restringiu à parte lesionada com vistas ao diagnóstico, pois os ferimentos poderiam estar associados a outras doenças.

— Mostramos que a hanseníase pode ser identificada na pele mesmo em regiões não lesionadas — comemorou Catharino, para quem "a metodologia é revolucionária por ser simples" e pode ser usada para outros diagnóstico, como o de cânceres de pele".

Fonte: O Globo