Causa. Esta é a palavra-chave que define o trabalho da Polícia Técnico-Científica, subordinada à Secretaria de Segurança Pública. O trabalho dos policiais técnico-científicos é fornecer as provas técnicas, conhecidas como provas periciais, que são produzidas através de análises de vestígios deixados em locais de crimes e acidentes. Para entender melhor este trabalho, o Projeto Olhares traz a vocês o resultado de dois meses de dedicação e conversas com os profissionais da área sobre a ciência forense. Visitei a Superintendência da Polícia Técnico-Científica de Jundiaí, ao qual fica a Equipe de Perícias Criminalísticas (E.P.C) da macro região de Jundiaí.

Conversei com o perito criminal Sérgio Linares Filho, que atua na área há 10 anos. O que vocês vão ler a partir de agora tem a missão de desmistificar essa profissão tão abordada em inúmeras séries e filmes. Um retrato nu, cru e esclarecedor sobre este trabalho tão fundamental para a justiça. Esqueça o glamour de CSI, conheça como é o trabalho dos peritos aqui no Brasil e o porquê de ser um trabalho tão fascinante. Você me acompanha?

A Polícia Forense brasileira, conhecida como Polícia Técnico-Científica tem uma estrutura linear, em formato de pirâmide. A Superintendência da Polícia Técnico-Científico é independente e atua junto à Polícia Civil, Militar e o Detran. É composta do I.M.L (Instituto Médico Legal), onde é realizado as necropsias e exames periciais de corpo de delito (no caso de uma suspeita de estupro, por exemplo, a vítima é examinada para confirmar se houve violação), e os Institutos de Criminalística (I.C). Especificamente, nesta matéria, vamos falar da equipe que atua no estado de São Paulo. Podem ocorrer algumas pequenas modificações na estrutura da Polícia Técnico-Científica de outros estados. Os departamentos da área forense do estado de São Paulo são estruturados. Na hierarquia mais alta, temos a Diretoria do Instituto de Criminalística, e subordinados a esta diretoria, temos o que é chamado de Diretoria de Núcleos, que atende às regiões que possuem seus núcleos específicos. Por exemplo, temos o Núcleo que rege o interior paulista, Núcleo grande São Paulo, Núcleo capital. Complicado? Parece, mas não é. A sede de perícias que eu visitei é o da equipe que atende à macro região de Jundiaí. A E.P.C de Jundiaí atende à nove cidades: Várzea Paulista, Jarinu, Cabreúva, Itatiba, Morungaba, Louveira, Campo Limpo Paulista, Itupeva e claro, Jundiaí. A E.P.C de Jundiaí, assim como a de Americana, Piracicaba, entre outras, pertencem ao Núcleo de Campinas, que é mais equipado e completo. Acima deste núcleo, está a Superintendência de São Paulo, que rege todos os núcleos do estado e onde está concentrada toda a tecnologia de ponta, por exemplo, os exames mais complexos, como o de DNA e balística, são realizados no Instituto de Criminalística de São Paulo.

O meu primeiro contato com o Sérgio foi em outubro. Eram exatamente quatro horas da manhã e quarenta e quatro minutos quando tive o meu primeiro contato com ele através de um primeiro bate-papo no chat do Facebook. Sérgio criou uma página na rede social para ajudar os interessados a ingressar nas carreiras dentro da polícia científica. A página tem cerca de 5000 likes e muitas informações sobre a profissão e dicas de estudo para o concurso público para a área. Tive sorte de ele trabalhar tão próximo à minha região, pois Jundiaí fica à uma hora de distância de Campinas. Quando ele me disse que era perito do E.P.C de Jundiaí, senti que estava indo no caminho certo. Durante dois meses aprendi muito com este profissional. Foram muitas emoções, noites mal-dormidas e como disse um amigo meu, "talvez alguns anos de terapia". Foram dias cheios de questionamentos sobre a natureza humana e seu lado mais obscuro. E por quê? Ao conhecer o dia-a-dia do trabalho destes profissionais, estes cientistas a serviço da lei, você conhece as histórias mais assustadoras, o pior lado do ser humano. Muitas pessoas dizem que é o sonho delas seguir esta profissão, que assistem muitos seriados e filmes sobre o assunto, dizem que possuem "estômago" para cenas fortes. Uma coisa é a ficção. Há "estômago", talvez por sabermos que aquilo é não é real. Nas cenas reais, todo aquele sentimento de "sou forte", vai embora. A cada cena, história de casos, você vê que a arte imita a vida, mas a vida é muito mais perturbadora, cruel e muito além da tinta vermelha e vísceras "teatrais".

Na madrugada da minha primeira conversa com o Sérgio, o mesmo comentou que tinha acabado de chegar de uma cena de suicídio com suspeita de homicídio cuja vítima tinha praticamente acabado de morrer. Periciou o cadáver que ainda estava com o corpo quente. Contou um pouco da rotina dele e como a Polícia Científica é estruturada dentro do estado de São Paulo. Sérgio tem 48 anos de idade, e trabalha há dez anos como perito criminal. Tem formação em Ciências da Computação, Física e Direito. Possui mestrado em Engenharia de Software e trabalhou como engenheiro de software, programador e com coordenação de projetos de Tecnologia da Informação tanto aqui como no exterior. Os primeiros trabalhos dele como perito, por conta da formação e experiência, envolveu crimes cibernéticos. Hoje, a grande maioria das ocorrências que Sérgio atende, envolvem crimes contra a vida: latrocínio, homicídio, infanticídio. Suicídios também são bem comuns, mas pela lei, não são considerados "crime". São investigados, pois muitos "suicídios" são dados como suspeita de homicídio. Falaremos sobre a questão do suicídio mais à frente.

Normalmente as situações de morte com as quais eu me deparo são decorrentes de violência…

E vocês devem estar se perguntando: "Nossa! Mas o que o fez tornar-se perito?". Segundo ele, o amor pelos estudos, e a curiosidade de investigar as CAUSAS, como tudo funciona. CURIOSIDADE é algo que todo perito deve ter. Deve ter um olhar observador fora do comum, ver o que os olhos desacostumados não vêem, buscando os mínimos detalhes. Junte isso, nervos de aço e o amor pela ciência e a busca pela verdade: temos um perito criminal. Para que eu entendesse um pouco dos conceitos durante nossa conversa sobre o trabalho da polícia científica, Sérgio me enviou um livro sobre técnicas básicas de criminalística. Mas o que é a criminalística? A criminalística, sobretudo é uma ciência plural, multidisciplinar. Ela envolve conceitos de outras ciências. Temos biologia, química, física, antropologia. A profissão do perito criminal, não aborda apenas a investigação de homicídios, crimes contra a vida, apesar desta matéria abordar bastante esta questão. A investigação da polícia científica é bem abrangente! Abaixo, temos as áreas de atuação em que a perícia trabalha, em campo e/ou laboratório .

Acidentes de Trânsito: acidentes devem ser submetidos à perícia quanto há vítima (fatal ou não). Em caso de acidentes sem vítima, que não caracterizam, em regra, crime, normalmente não é realizada perícia criminal. É analisado o impacto, local do acidente, mediante isolamento, constatação de defeitos mecânicos, grau de culpabilidade do condutor (se estava alcoolizado, por exemplo). Mediante estas constatações é elaborado o laudo do acidente. Se tiver vítima fatal, o corpo é periciado. Falaremos mais à frente sobre a perícia cadavérica.

Crimes contra o patrimônio: envolve delitos contra a propriedade industrial ou civil, furtos, danos.

Crimes contra a vida: homicídio, infanticídio, instigação ao suicídio (quando há tentativa de fazer uma pessoa cometer suicídio), aborto, lesões corporais (espancamento, por exemplo), abandono de incapaz (abandono de bebês recém-nascidos, por exemplo), omissão de socorro, maus tratos.

Crimes ambientais: poluição por resíduos industriais, atentados contra áreas protegidas, apreensão de animais silvestres, desmatamento. Na perícia deste tipo de crime, é feito uma avaliação do impacto ambiental e a coleta de evidências.

Crimes cibernéticos: a perícia é realizada nos computadores e equipamentos que foram utilizados como forma de ataque na constituição de um crime. Por exemplo, nos crimes de fraude bancária por meio de computadores, divulgação de imagens não autorizadas, acessos não autorizados, pedofilia.

Crimes contábeis: Um exemplo disto, quando, por exemplo, a empresa realiza lavagem de dinheiro, caixa 2, sonegações fiscais, entre outros crimes que possam envolver análise financeiro-contábil, peritos especialistas em contabilidade são designados para investigar as contas.

Audiovisuais – Análise de evidências que envolvem vídeos, fotos e áudio.

Documentoscopia:perícia em documentos, análises grafológicas. Envolve análise em qualquer tipo de documento que seja necessário para comprovar autenticidade.

Balística Forense: com o uso de equipamentos e conceitos de física, os peritos estudam a composição balística, trajetória de disparos, munições, efeitos de tiros.

Papiloscopia Forense: é a análise que permite a identificação humana através de vestígios de impressões digitais (datiloscopia), palmares (quiroscopia) e planta do pé (podoscopia). O Papiloscopista no estado de São Paulo é funcionário da Polícia Civil e atua junto à peritos da Polícia Científica.

Química Forense: Realiza análises químicas, bioquímicas e toxicológicas de evidências coletadas na cena de crime.

Toxicologia Forense: análise para detecção e identificação de substâncias tóxicas. Faz a análise de casos como envenenamento, uso e apreensão de entorpecentes, intoxicações em geral.

Biologia/Entomologia Forense: análise dos vestígios biológicos presentes na cena do crime, tais como sangue, cabelo, fragmentos de pele, resíduos de esperma. A entomologia forense é o estudo de insetos encontrados na cena do crime, principalmente moscas, formigas e besouros.

Perícias veiculares: envolvem análise de veículos apreendidos em cenas de crime, acidentes de trânsito. Realiza exames da pintura, classificação de danos no automóvel, identificação veicular (análise de chassi) e condições estruturais.

Fonte: Literatortura