Enquanto muitos de nós nos recuperamos da influenza após uma semana, esta pode ser uma doença muito grave, e até mesmo fatal em alguns casos, sem qualquer razão para que os médicos esperem este resultado.

Analisando o genoma de uma menina que contraiu uma forma severa de influenza com dois anos e meio de idade, pesquisadores do Laboratório de Genética Humana de Doenças Infecciosas, uma instituição franco-americana, descobriram que ela era portadora de uma mutação genética, desconhecida até agora, que causava uma disfunção sutil em seu sistema imunológico.

O estudo mostra que as mutações genéticas podem ser a raiz de diversas formas de influenza em crianças, e indica que mecanismos imunes ausentes na menina são necessários para a proteção contra este vírus em humanos. As conclusões da pesquisa foram publicadas na revista Science.

A gripe sazonal é uma infecção viral aguda causada pelo vírus influenza. Caracteriza-se por febre alta, dores de cabeça, dores musculares etc. Além da vacinação, não há tratamento para ela que não seja sintomático. Na maioria dos casos, os pacientes se recuperam depois de uma semana, mas em pessoas mais vulneráveis a gripe pode causar desconforto respiratório agudo, que é potencialmente fatal.

Os principais fatores de risco conhecidos para formas graves de influenza são algumas comorbidades adquiridas, tais como a doença pulmonar crônica. No entanto, a causa da maioria dos casos fatais ainda é misteriosa, especialmente em crianças.

A ausência dos casos de gripe severa em pacientes com imunodeficiências adquiridas conhecidas, que geralmente aumentam a suscetibilidade a infecções, também é surpreendente.

Considerando estas observações, os pesquisadores formularam uma hipótese de que a gripe severa em crianças saudáveis pode ser resultado de erros genéticos.

Para testar esta teoria, os cientistas sequenciaram o genoma inteiro de uma criança de 7 anos de idade, que havia contraído um tipo grave de influenza (influenza A subtipo H1N1), requerendo sua admissão em uma unidade de terapia intensiva pediátrica em janeiro de 2011, quando tinha dois anos e meio de idade. Na época, ela não mostrou nenhuma outra patologia conhecida que poderia ter sugerido uma maior vulnerabilidade ao vírus do que a de outras crianças.

Este exame, combinado com a análise dos genomas de seus pais, tornou possível mostrar que a menina tinha herdado um alelo mutante de um gene, cuja presença interrompeu o sistema de defesa contra a infecção pelo vírus.

Através da realização de uma ampla série de experimentos em células sanguíneas e pela geração de células do pulmão a partir de células-tronco retiradas da criança, os pesquisadores provaram que as mutações observadas na menina explicam o desenvolvimento da influenza grave.

Os pesquisadores também pretendem procurar mutações em genes de outras crianças recrutadas após episódios de gripe severa inexplicada.

Fonte: O Globo