O mito do hemisfério esquerdo lógico e o hemisfério direito criativo tornou-se uma poderosa e útil metáfora para o entendimento do cérebro humano. Mas enquanto essa noção não é totalmente infundada, o psicólogo Christian Jarrett diz que devemos confrontá-la. Achar o que o modelo cérebro-esquerdo e cérebro-direito tem de correto – e como ela nos engana sobre o nosso próprio cérebro.

O mito dos hemisférios do cérebro provavelmente nunca vai morrer porque ele se tornou uma poderosa metáfora para diferentes formas de pensamento – um lado lógico, focado e analítico, contra um liberal e criativo. Pegue o exemplo do chefe britânico Rabbi Jonathan Sacks falando na Radio BBC 4:"O que faz a Europa acontecer e faz ela tão criativa," ele explica, "é que o cristianismo era uma religião ligada ao lado direito do cérebro… traduzida para uma linguagem do lado esquerdo [Grego]. Então, por séculos você teve essa visão de que ciência e religião são essencialmente partes da mesma coisa."

Bem como um apelo metafórico, a ideia sedutora do lado direito do cérebro e seu inexplorado potencial criativo também tem uma longa história de ser alvo de gurus de auto-ajuda vendendo pseudo-psicologia. Hoje, a mesma ideia é também explorada pelos criadores de jogos e aplicativos de auto-aperfeiçoamento. A última versão do aplicativo The Faces iMake-Right Brain Creativity para iPad, por exemplo, se vangloria de que "é uma extraordinária ferramenta para desenvolver as capacidades criativas do lado direito do cérebro".

Há mais do que um grão de verdade para o mito dos hemisférios do cérebro. Embora eles sejam diferentes, os dois hemisférios do cérebro funcionam de formas diferentes. Por exemplo, já se tornou um conhecimento de senso comum que na maioria das pessoas o lado esquerdo é dominante para a linguagem. O lado direito, por outro lado, é mais ativo no processamento emocional e nas representações do estado mental dos outros. Entretanto, a distinção não é totalmente clara como o mito faz parecer. Por exemplo, o hemisfério direito está envolvido em processar alguns aspectos da linguagem, como a entonação e a ênfase.

Muito do que nós sabemos hoje sobre as diferenças entre os hemisférios veem dos notáveis estudos de divisão de cérebros que começaram nos anos sessenta. Essas pesquisas foram conduzidas com pacientes que tiveram o grosso feixe de fibras que ligam os hemisférios cortados como um último recurso para tratamento de epilepsia. Pesquisadores, incluindo os psicólogos Roger Sperry e Michael Gazzaniga, puderam estimular apenas um hemisfério por vez, e descobriram que as duas metades do cérebro agiram como entidades independentes, com diferentes estilos de processamento.

É também importante notar que o tipo de tarefa que envolve um hemisfério mais do que o outro nem sempre mapeia cuidadosamente os tipos de categorias que achamos útil falar nas nossas vidas cotidianas. Vamos pegar o exemplo da criatividade. Podemos achar ela um atalho útil para dividir tarefas entre aquelas que são criativas e aquelas que são repetitivas. Obviamente a realidade é bem mais complexa. Existem muitas maneiras de ser criativo.

Na verdade, alguns estudos mostraram que o hemisfério direito parece estar mais envolvido quando temos um lampejo de inspiração. Por exemplo, um estudo descobriu que a atividade cerebral era maior no hemisfério direito quando os participantes resolveram uma tarefa por inspiração ao invés de gradualmente. Outro mostrou que uma pequena exposição a quebra-cabeças é mais útil para o hemisfério direito do que o esquerdo, como se o direito estivesse mais próximo da resposta.

Mas inspiração é apenas um dos tipos de criatividade. Contar histórias é outro tipo. Uma das mais fascinantes revelações dos estudos de divisão de cérebros foi que o hemisfério esquerdo cria histórias para explicar o que o hemisfério direito tem que fazer, – o que Gazzaniga apelidou de "fenômeno intérprete". Por exemplo, em um estudo uma paciente completou uma tarefa de correspondência de figuras usando a sua mão esquerda (controlado pelo hemisfério direito) para corresponder uma pá com uma tempestade de neve (mostrado apenas para o hemisfério direito). Foi perguntado ao paciente por que ele fez isso. Mas o seu hemisfério esquerdo (a fonte da fala) admitiu não saber de nada. Ao invés disso, ele confabulou, dizendo que chegou na pá para limpar o seu galinheiro (a imagem mostrada ao hemisfério esquerdo foi a de um pé de um pássaro).

Fazendo um resumo do estudo de divisão de cérebros em um artigo na Scientific American (pdf em inglês), Gazzaniga concluiu, baseado no fenômeno interprete e outros resultados, que o hemisfério esquerdo é "inventivo e interpretativo", enquanto o direito é "verdadeiro e literal". Isso parece em desacordo com o mito invocado por Rabbi Sacks e muitos outros pseudocientistas.

Suponho que o mito do cérebro esquerdo lógico e do cérebro direito criativo tem uma simplicidade sedutora. As pessoas podem perguntar: "que tipo de cérebro eu tenho?" e assim comprar um aplicativo para treinar a metade fraca. Eles podem categorizar linguagens e pessoas como tendo o cérebro direito predominante ou o esquerdo. É complicado combater essa crença dizendo que a verdade é bem mais complicada. Mas vale a pena tentar, porque seria uma vergonha se um mito simplista abafasse a história fascinante de como o nosso cérebro realmente funciona.

Fonte: Universo racionalista