Os brasileiros estão fumando menos, mas hábitos de vida como a dieta desregrada e a falta de exercícios físicos continuam causando alto índice de doenças crônicas no país, como a hipertensão arterial, diabetes e depressão.

Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), um levantamento inédito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, apesar de o tabagismo ter diminuído em 20,5%, as doenças crônicas são o grande problema de saúde do país. A região Sul obteve os maiores índices de doenças crônicas, com 47,7%. Em números absolutos, isso significa 10,3 milhões de habitantes.

O Sul é o campeão também no ranking da depressão — 12,6% do total da população brasileira — e casos de câncer em pessoas com mais de 18 anos — 3,2% da população. De acordo com o IBGE, os números são expressivos comparados a outras regiões, mas não indicam que o Sul tenha mais casos. Isso porque nem todos têm acesso a profissionais da saúde de maneira igual, segundo o instituto.

Alessandra Scalioni Britto, técnica do IBGE que participou do levantamento, alerta para o fato de que as informações devem balizar novas políticas públicas, principalmente na área de prevenção:

— É importante não olhar apenas para os dados das doenças, mas para o potencial que a pesquisa apresenta de criar novos hábitos. O foco deveria ser principalmente na restrição ao uso de álcool e tabaco, e no incentivo a atividades físicas — diz Alessandra.

O médico do Instituto do Câncer Mãe de Deus, Stephen Stefani aposta na consistência da pesquisa, mas alerta para a diferença que existe entre incidência (casos novos) e prevalência (casos existentes). O que faz com que doenças crônicas sejam tão mencionadas, segundo ele, é que as doenças de alta letalidade são subnotificadas por motivos evidentes: as pessoas morrem antes de opinar.

O oncologista aponta que, se não houver mudança nestes números, o Brasil irá pagar um preço elevado nos próximos anos:

— Espera-se que medidas mais assertivas para a prevenção sejam adotadas, com criatividade e resultados mensuráveis. Pouco mais da metade dos fumantes cogitou parar de fumar devido ao anúncio na carteira de cigarro. É pouco efetivo. Tem mérito, mas é inequivocamente insuficiente — diz o médico.

Número de sedentários preocupa o governo

O ministro da Saúde, Arthur Chioro, classificou o sedentarismo como um "problema de saúde pública" no país após ter acesso aos resultados que apontam que quase a metade, 46%, dos adultos brasileiros são sedentários. A nível mundial, a taxa só é menor do que a da África do Sul, onde a inatividade chega a 52,4% dos moradores.

Os dados internacionais foram levantados — sem o índice do Brasil — em 2012 pela revista científica The Lancet. A coordenadora da Pesquisa Nacional de Saúde, Maria Lucia Vieira, fez um comparativo da atual posição do país com o estudo mundial. Logo depois do Brasil, está os Estados Unidos, com 40,5% de sedentários.

— O sedentarismo precisa ser enfrentado como um problema de saúde pública. Por isso é fundamental o desenvolvimento de atividades físicas desde a idade escolar — disse o ministro.

— Temos agora uma informação que nos convoca a desenvolver estratégias mais potentes como o programa Academias da Saúde, os grupos de caminhada e outras atividades para o controle, inclusive, de doenças crônicas, que são as que matam até 73% dos brasileiros — acrescentou.

Álcool entre jovens deve ser combatido

Chioro disse ainda que deve haver maior fiscalização e acompanhamento familiar para evitar o consumo precoce de bebida alcoólica por jovens. Segundo dados da pesquisa, 47% dos brasileiros declararam que começaram a consumir bebidas alcoólicas antes dos 18 anos.

Segundo levantamento do IBGE, chega a 34,6% o percentual de adolescentes de 15 a 17 anos que consomem bebida alcoólica uma vez ou mais por semana. O ministro disse que deve levar a pesquisa a secretários municipais e estaduais.

— Agora é hora de analisar os dados. Temos de lidar com mais especialidades médicas, como pediu a presidente Dilma. As informações são importantes também para os novos secretários, por isso, vamos passar diretamente a pesquisa para eles — disse.

Doenças crônicas

No Brasil, o índice atinge cerca de 40% da população, o equivalente a 57,4 milhões de pessoas. As doenças crônicas são responsáveis por mais de 72% das causas de morte no Brasil. Hipertensão arterial, diabetes, doença crônica de coluna, colesterol e a depressão são as mais comuns.

Depressão

No Brasil, a depressão é a quarta doença crônica mais diagnosticada, com 7,6%, seguida de hipertensão, problema crônico de coluna e colesterol alto. Cerca de 42% dos pacientes com depressão são atendidos em consultórios particulares ou clínicas, e 33,2% recorrem a unidade básica de saúde. Segundo a pesquisa, pessoas entre 60 e 64 anos têm mais chances de apresentar os sintomas: 11,1% dos depressivos estão nessa faixa etária.

Colesterol alto

A frequência de pessoas que referiram diagnóstico médico de colesterol alto é mais representativa nas faixas de maior idade: 25,9% das pessoas de 60 a 64 anos de idade, 25,5% das pessoas de 65 a 74 anos e 20,3% para aqueles com 75 anos ou mais. As regiões Sudeste, Sul e Nordeste apresentaram percentuais desse indicador equivalentes estatisticamente à média nacional: 13,3%, 13,0% e 12,2%, respectivamente.

Diabetes

Das 9,1 milhões de pessoas que acusaram ter a doença, a maioria está nas regiões Norte e Nordeste, com proporções de 4,3% e 5,4%, respectivamente. Em relação aos grupos de idade, quanto maior a faixa etária, maior o percentual, que variou de 0,6%, para aqueles de 18 a 29 anos de idade, a 19,9%, para as pessoas de 65 a 74 anos de idade.

Fonte: Zero Hora