Cannabis sativa é uma planta com a qual se produz a droga ilícita mais consumida em muitos países, inclusive no Reino Unido, onde é cultivada legalmente com finalidades medicinais. Seu uso humano não é recente, pois há registro de que a planta já fosse utilizada como fonte de fibras têxteis há 6.000 anos, na China.

É de lá que provêm os mais antigos registros de seu uso medicional, que datam de cerca de 3.000 anos, mas que provavelmente se originaram na medicina ayurvédica, o conhecimento médico mais antigo do mundo, que se desenvolveu na região da Índia (ayurveda significa, em sânscrito, "ciência", "conhecimento"). Há registro de seu uso em um importante papiro egípcio de 1700 AC, encontrado no Templo de Ramsés II, em Luxor, no qual estão descritos em detalhe procedimentos médicos. Entre nós, é sabido que a maconha era largamente utilizada pelos escravos no Brasil, como diz Gilberto Freire em seu livro "Casa Grande e Senzala".

Eles a teriam trazido da África, mas ele cita como origem da informação o historiador baiano Manuel Querino (1851-1923). O nome "maconha", afinal, é de um dialeto angolano. Essas referências do Egito e de seu uso pelos africanos escravisados são indícios de uma possível origem africana da planta, embora sejam inconclusivas. Assim, não se sabe ao certo onde a planta se originou, mas acredita-se que muito provavelmente provenha dos lugares onde foram encontrados os registros mais antigos de seu uso, como o norte da Índia e a parte mais ocidental da China.

O emprego da maconha na medicina está renascendo, mas, na verdade, diante do escopo de tempo de seu uso, pode-se dizer que ele ficou eclipsado por relativamente poucos anos. Na Índia ela foi usada continuamente, com finalidades religiosas e como remédio para tratamento dos espasmos causados pelo tétano, e a experiência colonial britânica a introduziu oficialmente no país em 1841, como uma tintura com indicações terapêuticas.

Na primeira edição do Manual Merck, de 1899, o livro de referência médica mais utilizado pelos profissionais de todo o mundo até hoje, ela era listada como um remédio eficaz contra várias formas de dor, mas foi gradativamente ficando fora de uso nos cem anos que se seguiram, até que a indústria farmacêutica a redescobrisse, como ocorre hoje em dia.

Na Inglaterra foi licenciado em 2010 o spray para uso oral Sativex (GW Pharmaceuticals), indicado para pacientes com esclerose múltipla, uma doença degenerativa muito grave. Seu uso já foi autorizado em diversos países da Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia e está sob análise em diversos outros (Fig 1). De um lado, o interesse farmacêutico se amplia pelo fato de o THC reforçar a ação de medicamentos utilizados no tratamento do glaucoma, relaxantes musculares, broncodilatadores e manter interação medicamentosa com drogas atiepiléticas e potencializar a ação analgésica de opiáceos.

Além disso, tem efeito estimulante do apetite. Por outro lado, ao potencializar a ação de outras drogas de uso recreativo, inclusive lícitas, como o álcool, seu consumo está associado à chamada "escalada", na qual o uso esporádico de uma droga incentivaria o uso de outras, e esse é um dos argumentos utilizados contra sua legalização.

Fonte: neliobizzo