Imagine estar diante de uma máquina fotográfica e encobrir o rosto com um pano preto. Seria difícil reconhecer a pessoa na foto ou, pelo menos, não daria para saber se ela está sorrindo ou brava.

É com esta comparação que Carlos Balaratti, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira de Patologia Clínica), explica uma das principais dificuldades em obter resultados precisos em exames laboratoriais.

"O exame é como uma fotografia. Se o preparo for inadequado, a imagem vai sair distorcida", explica Balaratti, ao apontar que muitos erros médicos podem acontecer porque o paciente não se preparou adequadamente para o exame.

Na fase pré-analítica, antes da pessoa ser submetida ao exame, ela deve receber informações sobre os preparos para o procedimento. "O paciente diz que seguiu o jejum, mas tomou café e água. Isso vai interferir no resultado de alguns exames. É preciso alertar corretamente o paciente", destaca o médico.

A ingestão de água, exemplifica Balaratti, interfere em diversos exames de urina. Até a falta de repouso pode ser um problema. "Ela pode interferir em dosagens de hormônios, caso da prolactina", aponta.

Se o paciente não adotar os devidos cuidados, pode acabar com resultados errados, até com um falso positivo para doenças graves, afinal o médico vai se basear no laudo do exame para montar seu diagnóstico.

Claudia Regina Cruz de Oliveira, responsável pelo laboratório de análises clínicas do Centro Universitário Barão de Mauá, cita os diagnósticos errados de câncer de intestino. "Imagine receber um diagnóstico de suspeita de câncer e depois descobrir que ele estava errado", diz ela.

Um dos testes para investigar a suspeita de tumor no intestino é o exame de sangue nas fezes. "Se a pessoa tiver ingerido carne vermelha até três dias antes, o sangue da carne pode ser confundido com um sangramento típico do câncer", explica a especialista.

Medicamentos

Os médicos alertam também para a importância de comunicar o uso de medicamentos antes dos exames. É comum acontecer, explica Balaratti, da pessoa dizer que toma algum medicamento constantemente, mas não citar um remédio eventual, como ácido acetilsalicílico ou paracetamol.

Por serem medicamentos comercializados sem a obrigatoriedade da prescrição médica, muitos pacientes acreditam que eles não têm o poder de influenciar o resultado do exame. Mas isso pode acontecer, inclusive com o uso de substâncias fitoterápicas. "A pessoa acha que a substância é natural, não interfere, mas pode interferir sim", adverte o presidente da SBPC.

E uma interferência no resultado do exame pode ser comprometedora na hora de estabelecer o tratamento adequado. Segundo estimativa da SBPC, cerca de 70% dos diagnósticos médicos são feitos com base em exames laboratoriais. E este é o primeiro passo para aperfeiçoar ou intensificar o tratamento de inúmeras doenças.

Perder a viagem

É difícil mensurar o quanto isso acontece, mas os médicos têm notado também que um problema recorrente na fase pré-analítica de exames clínicos está no comportamento do paciente. Com medo de perder a viagem ou de levar uma bronca do atendente, ele pode omitir que não cumpriu à risca as recomendações médicas de jejum ou repouso, por exemplo. "Mas não adianta. O resultado pode sair distorcido", ressalta Balaratti.

Em contrapartida, outros pacientes pecam pelo excesso de cuidados. Eles tentam se tornar uma pessoa saudável do dia para noite, na esperança de esconder alguns deslizes durante o tratamento médico.

Isso é comum, citam os especialistas, em pacientes diabéticos ou hipoglicêmicos. Contudo, existem exames que são capazes de identificar padrões de comportamento do paciente por até dois meses antes da coleta. É o caso da análise da hemoglobina glicada, indicada para verificar alterações de glicose. Se a pessoa está desrespeitando a dieta e comendo doces, o exame vai detectar.

Dicas para o pré-exame

Jejum: alguns exames, como verificação dos níveis de glicose, colesterol e triglicerídeos, devem ser coletados com determinado tempo de jejum. Se o paciente estiver com minutos ou horas a mais ou a menos, os resultados desses exames não serão verídicos. Água em pequena quantidade é permitida, mas é fundamental seguir todas as recomendações transmitidas no momento do agendamento do exame.

Uso de medicamentos: deve-se sempre informar todos os medicamentos utilizados. O uso de alguns fármacos pode interferir na análise, causando falsos resultados em alguns exames, como no caso do TSH, que verifica casos de hipotireoidismo (o uso nos últimos 30 dias, em especial de hormônios tireoidianos, amiodarona e glicocorticóides, pode alterar os dados).

Repouso: alguns exames requerem repouso prévio e/ou determinada posição para serem coletados. O não cumprimento desse pré-requisito implica em alterações nos resultados, como no caso do cortisol e renina.

Fonte: iG