Uso tecnológico dos microrganismos

Os microrganismos são utilizados há milhares de anos na produção de bebidas e alimentos através do processo de fermentação, empiricamente mesmo quando as pessoas não sabiam direito o que eram microrganismos. Frutas e cereais são empregados na fabricação das mais variadas bebidas alcoólicas, como o vinho e a cerveja, e, posteriormente, destilando certos fermentados obtém-se as chamadas bebidas destiladas, como o uísque, vodka, saque e cachaça. Alimentos como os muitos tipos de queijos existentes são obtidos através da fermentação do leite.

Porém com os avanços dos conhecimentos sobre os microrganismos, houve não só a melhoria das técnicas tradicionais na produção de bebidas e queijos, como também nas técnicas de esterilização de embalagens e na pasteurização de alimentos. Não só a industria alimentícia se beneficiou, pois há várias aplicações de microrganismos para a produção de medicamentos, na bioengenharia e no controle de pragas e descontaminação ambiental.

A produção de medicamentos a partir de microrganismos, como a penicilina obtida de fungo, também foi melhorada e outros medicamentos foram produzidos, contudo a biotecnologia, originária dos avanços do conhecimento e das técnicas de recombinação genética, abriu novos horizontes para a indústria farmacêutica. O melhor exemplo é a produção de insulina, que anteriormente era de origem bovina, o que acarretava altos custos de produção e beneficiamento do produto, além de não ser apropriada a muitos insulinodependentes, porém com a obtenção de bactérias transgênicas, nas quais são inseridas as informações genéticas humanas para a produção de insulina, estes microrganismos a produzem não só somente em grande quantidade, com custo relativamente mais baixo, mas como também o produto final é perfeitamente compatível com todos os usuários, pois a insulina produzida é, geneticamente, de origem humana.

Uma doença bastante comum em certas culturas é a galha da coroa, causada por uma bactéria, Agrobacterium tumefaciens, que penetra no tecido vegetal e cria tumores causada pela indução de um crescimento desordenado das células. Esta capacidade de penetração foi utilizada pelos especialistas em genética para a criação de versões transgênicas da Agrobacterium, substituindo as informações genéticas que produzem tumores por informações de interesse, como produção de substâncias inseticidas ou resistências a pesticidas. Há ainda a utilização de outras bactérias e vírus tanto em produção agrícola quanto na pesquisa em técnicas com tecidos animais.

Algumas culturas sofrem grandes perdas devido à ação direta de insetos que as danificam ou, indireta, por serem vetores de outras pragas, assim, tem-se empregado atualmente microrganismos para seu controle biológico. A utilização de microrganismos é muito menos nociva a saúde humana que os inseticidas industriais e esta prática aponta como uma vertente econômica bastante viável. Esta é a técnica usada, por exemplo, na produção de alimentos orgânicos.

Sendo muitos microrganismos capazes de metabolizar inúmeros compostos químicos que os organismos superiores não conseguem, estes estão sendo empregados atualmente em na biorremediação, a fim de limpar lixo tóxico e poluentes eliminados no meio ambiente. Alguns fungos, mas principalmente bactérias, utilizam-se destas substâncias como forma de energia e os resíduos por elas gerados são na maioria das vezes inócuos ou de menor toxicidade.

Microrganismo X Saúde humana

Quando pensamos na relação entre os microrganismos e a saúde humana, a primeira ideia que nos surge é uma só: doenças. Sem dúvida este é um aspecto importante, mas a nossa relação com os microrganismos é muito mais do que isso. Em nossa pele, ouvidos, cavidade oral e vias aéreas superiores, órgãos genitais e principalmente no aparelho digestivo, mais significativamente nos intestinos pululam microrganismos, especialmente bactérias, sendo as mais comuns dos gêneros Staphylococcus e Streptococcus. Esta relação é tão íntima e importante que alguns pesquisadores chegam a afirmar que não somos inteiramente humanos. Parece exagero, porém há muito se sabe que 50% a 70 % do peso seco das fezes humanas é composto de microrganismos. Mas, os números são mais surpreendentes ainda. Há estimativas de que algo em torno de 90% das células que formam nosso intestino são compostas por bactérias - são aproximadamente 100 trilhões de microrganismos, com mais de mil espécies. Estima-se também que somente na boca haja pelo menos 800 espécies.

Mas, qual a importância delas para nós? Nossos intestinos são somente um reservatório de bactérias e outros microrganismos? A resposta é também surpreendente, pois estes minúsculos seres, que formam a chamada flora intestinal, realmente tiram proveito do local em que se encontram, obtendo proteção e nutrientes, mas nós também dependemos deles para as mais variadas funções. Muitas bactérias que ali residem sintetizam vitaminas como a K e algumas do complexo B, ajudam a degradar substâncias do nosso próprio metabolismo e outras como fibras e açúcares que não somos capazes de metabolizar. Além disso, a competição com outros microrganismos danosos ao nosso organismo que eventualmente venham a invadi-lo garante que estes não se proliferem. Muitas doenças estão relacionadas a este desequilíbrio entre a presença ou ausência dos microrganismos que residem em nós. Há ainda muito a ser investigado sobre a nossa relação com os microrganismos.

Mas, os microrganismos que se encontram harmonicamente vivendo em determinada região do nosso corpo, quando por qualquer motivo venham a parar em outra região, podem causar sérios danos. E há além desses, aqueles provenientes do ambiente externo, trazidos pela ingestão de água e alimentos, pelo ar, por aberturas na nossa pele e pelo contato com sangue ou fluídos corporais de uma pessoa infectada, além de picadas de insetos ou mordidas de animais. A lista de doenças de origem microbiana é imensa, assim como as formas de tratamento e profilaxia, variando conforme o organismo em questão. Cada grupo de microrganismo possui características diferentes e mesmo dentro de um determinado grupo há um universo de formas de ação, assim bactérias, por exemplo, muitas vezes liberam toxinas que podem causar sérios danos ao organismo, ou vírus que infectam células específicas, a fim de se reproduzir, levando-as a destruição.

Fonte: Acervo Pessoal Rosemary Araújo