Antes mesmo de um bebê nascer um ecossistema microbiano se instala na placenta, criando um microbioma (microrganismos, seus genomas e as condições ambientais) que pode ajudar a moldar o sistema imune da criança e talvez influir em nascimentos prematuros. A revelação, baseada no perfil genético de centenas de placentas, oferece a prova mais definitiva até agora de que o órgão que sustenta a vida, que nutre o feto e ajuda a remover resíduos, está longe de ser estéril.
Embora a composição da microbiota humana tenha se tornado cada vez mais clara com a tecnologia do sequenciamento genético, pouco se sabe sobre o que forma as primeiras comunidades microbianasem humanos. Também não se sabe quando, exatamente, um bebê é exposto pela primeira vez a esses microrganismos e colonizado por eles.

Um novo conjunto de criaturas placentárias está colocando esses microrganismos no centro das atenções e suscitando questões sobre como elas poderiam ajudar a modular a saúde humana antes do nascimento, incluindo microrganismos maternos. A equipe liderada por Kjersti Aagaard, professora de obstetrícia e ginecologia no Baylor College of Medicine e no Texas Children’s Hospital, analisa sequências genéticas de centenas de microbiomas placentários de bebês prematuros e bebês nascidos a termo. Em seguida, esses dados são comparados com um inventário existente da microbiota da pele, das vias aéreas, vaginas, intestinos e bocas de mulheres não gestantes. O trabalho foi publicado em 21 de maio na Science Translational Medicine.

O trabalho de Aagaard constatou que amostras placentárias de 320 bebês na realidade se assemelhavam mais à comunidade de microrganismos encontrados na boca humana e não à do intestino, das fezes ou da vagina. A pergunta foi: como esses microrganismos chegam lá? Os autores teorizaram que a microbiota bucal de uma futura mãe viaja através do sangue e entra na placenta, derrubando uma teoria anterior que sugere que microrganismos na placenta e na cavidade amniótica se originam na vagina. "Existem muitas pistas sobre a biologia e o desenvolvimento a serem desvendadas e detalhes ainda não investigados, e a placenta com certeza tem muitos deles", admite Aagaard. "A biologia da gravidez sem dúvida é importante se quisermos entender a saúde da próxima geração", acrescenta.

Outro dado interessante da análise é que, independente de os bebês nascerem através de uma cesariana ou se desceram pelo canal de nascimento (passando pelo "corredor" de bactérias locvais), a composição do microbioma placentário parecia ser mais ou menos o mesmo. Isso indica que, pelo menos para a placenta, o tipo de parto não altera sua comunidade microbiana. A descoberta não responde como esse método impacta um bebê, porque ele normalmente engoliria líquido amniótico e microrganismos ao longo do canal de nascimento durante o parto.

Com o novo perfil do microbioma placentário "não sabemos o que é causa e efeito. Descobrir isso envolverá um estudo longitudinal de amostras muito mais longo e contínuo", confessa Aagaard. Como próximo passo, sua equipe pretende se aprofundar ainda mais na busca de respostas para muitas questões, inclusive como cesarianas influenciam mibrobiomas infantis em comparação com partos naturais.

Fonte: Scientific American Brasil