"Vejo muitos estudantes na audiência e, se vieram aqui para saber se há futuro para a pesquisa médica, minha resposta é um retumbante sim."

Foi com essa frase que Francis S. Collins, diretor do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, iniciou a palestra "Genomics, Advanced Technology, and the Future of Medicine" (Genômica, Tecnologia Avançada e o Futuro da Medicina), apresentada na sede da FAPESP.

Bacharel em Química pela University of Virginia, com doutorado em Físico-química pela Yale University, Collins ficou conhecido por liderar, entre os anos de 1990 e 2003, o Projeto Genoma Humano – esforço internacional voltado a identificar todos os nucleotídeos que compõem o genoma de nossa espécie.

De 2003 a 2005, à frente do National Human Genome Research Institute (NHGRI), Collins coordenou uma série de outros projetos na área de genômica que ajudaram a identificar as bases genéticas de diversas doenças.

Em 2009, foi nomeado pelo presidente norte-americano Barack Obama como diretor do NIH – instituição que representa a maior fonte de financiamento para pesquisa na área médica em todo o mundo.

Durante sua apresentação na FAPESP, Collins comentou o andamento de alguns dos mais ambiciosos projetos atualmente financiados pelo NIH, como The Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies (BRAIN) Initiative.

"Foi uma iniciativa anunciada há cerca de um ano pelo presidente Obama e é uma oportunidade ousada de unir especialistas de diversas disciplinas que em geral não trabalham juntos, como eletrofisiologistas, especialistas em imagens, neurocientistas, neurologistas. Avaliar o que podemos fazer juntos para entender de que forma o cérebro funciona? É um desafio realmente grande", disse Collins.

Outra iniciativa que mereceu destaque foi o National Center for Advancing Translational Sciences (NCATS) – um dos 27 institutos que integram o NIH e cuja missão é acelerar o processo de transformação das descobertas científicas em novos tratamentos.

"Graças aos avanços na área de genômica conhecemos atualmente as bases moleculares de mais de 5 mil doenças, mas para apenas 250 delas já existe um tratamento aprovado", comentou Collins.

Uma das formas de reduzir os custos e a duração dos testes pré-clínicos que visam garantir a segurança de compostos candidatos a medicamentos, afirmou Collins, seria testar a toxicidade em células humanas "sem colocar humanos em risco".

"Com base no enorme avanço da tecnologia de células-tronco é possível tentar desenvolver um biochip. E, com isso, fazer uma biópsia de pele, transformar os fibroblastos em células-tronco e depois diferenciar essas células em qualquer tecido considerado importante para testar toxicidade, como fígado, pulmão, rim, músculos ou neurônios. E então pegar essas células diferenciadas e imprimi-las em três dimensões para criar estruturas semelhantes aos órgãos humanos nas quais os compostos poderiam ser testados", explicou.

Entre os campos promissores de pesquisa em biomedicina, Collins destacou o desenvolvimento de imunoterapias contra o câncer e de uma vacina universal contra a gripe.

Collins destacou também os estudos voltados ao combate do crescente problema de resistência microbiana a antibióticos. Nesse âmbito, o diretor do NIH anunciou o apoio – em parceria com a FAPESP – a um projeto voltado ao estudo de formigas brasileiras para identificar agentes antifúngicos com potencial para serem transformados em novos medicamentos.

A pesquisa será liderada por Monica Tallarico Pupo, da Universidade de São Paulo (USP), e por Jon Clardy, da Harvard Medical School, e foi aprovado na primeira chamada de propostas de pesquisas lançada em conjunto pela FAPESP e o John E. Fogarty International Center (FIC), órgão ligado ao NIH.

"Estamos particularmente empolgados com a forma como esse projeto é financiado. O NIH apoia a sua parte, a FAPESP apoia a sua parte e não há burocracia, o que é sempre bom. Gostaríamos de ter mais projetos com esse perfil", disse.

Em entrevista concedida à Agência FAPESP após o término da palestra, Collins falou sobre as perspectivas futuras de colaboração com cientistas brasileiros e sobre os grandes avanços da medicina que deverão despontar nos próximos anos.

O que esperar no futuro da parceria com o Brasil e, mais especificamente, com a FAPESP?

Francis Collins – O Brasil está crescendo muito rapidamente e muito recurso vem sendo investido em pesquisa e no treinamento de um número crescente de jovens cientistas.

Não sou capaz de prever em que posição estará a ciência brasileira daqui a cinco anos, mas quero estar certo de que estaremos intimamente alinhados para aproveitar as oportunidades que serão abertas. Fiquei muito feliz em anunciar, como exemplo, o lançamento desse esforço conjunto com a FAPESP de um projeto sinérgico realmente bom que envolve um pesquisador de Harvard e outro da USP.

Cada um deles conta com as habilidades apropriadas para esse incrível projeto que possibilitará descobrir novas drogas. Não estou certo de que poderíamos imaginar algo assim dez ou 15 anos atrás.

Fonte: Exame