Retrovírus infecciosos e retroposição: O "dogma central da biologia molecular", enunciado em 1958 pelo grande cientista inglês Francis Crick (1916-2004), estabelecia que a informação genética flui unidirecionalmente de DNA para RNA para proteínas. Como sói acontecer com dogmas, este não durou muito tempo. Em 1970 dois cientistas americanos, David Baltimore (que tinha apenas 32 anos na época) e Howard Temin (1934-), descobriram de forma independente uma enzima chamada transcriptase reversa, capaz de sintetizar DNA usando RNA como molde. A transcriptase reversa é uma enzima que sintetiza DNA a partir de RNA. Além de ter um papel importantíssimo no ciclo de vida dos retrovírus e na manutenção das extremidades dos cromossomos (como telomerase), as transcriptases reversas são parte fundamental e indispensável da caixa de ferramentas da engenharia genética.

Inúmeros retrovírus são importantes causas de doença, especialmente tumores, em várias espécies de mamíferos. Curiosamente, isso não ocorre em humanos. Na nossa espécie apenas retrovírus mais complexos e sofisticados, chamados lentivírus, são capazes de afetar nossa saúde. Aliás, é um destes lentivírus, o HIV, que causa a Aids. É a tendência da transcriptase reversa de cometer erros freqüentes no processo de copiar o RNA em DNA que é responsável pela elevadíssima taxa de mutação do HIV, permitindo a esse vírus evoluir com velocidade espantosa (como já discutimos anteriormente ) e escapar da vigilância do nosso sistema imunológico.

De volta ao genoma humano: Na década de 1990 foram descobertas, no genoma de aves e mamíferos, inúmeras sequências de DNA que tinham grande similaridade com os retrovírus infecciosos e por isso foram denominadas retrovírus endógenos (RVEs). Sabemos hoje que esses estranhos elementos constituem 8% do genoma humano. Como já vimos acima, uma das características mais fundamentais dos retrovírus é a capacidade de integrar-se no DNA da célula hospedeira na forma de pró-vírus, como parte de seu ciclo de replicação. Assim, acreditamos que os retrovírus endógenos sejam o resultado de infecções ancestrais de células germinativas por retrovírus infecciosos. Ao incorporar-se no DNA nuclear, esses retrovírus passaram a ser partes integrais do genoma da espécie e foram transmitidos estavelmente às gerações subsequentes.

Esse processo de "endogenização" não ocorreu apenas no nosso passado evolucionário longínquo. Sabemos que algumas cópias desses RVEs são polimórficas (estão presentes em algumas pessoas e não em outras), indicando com certeza que foram integradas ao genoma humano após a emergência da humanidade moderna na África, há menos de 200 mil anos. Um pequeno raciocínio evolucionário nos sugere que, se a presença dos RVEs fosse muito deletéria, eles jamais teriam se perpetuado no genoma, pois teriam sido eliminados pela seleção natural. Sabemos que a expressão genética dos retrovírus endógenos recém-incorporados ao genoma é reprimida por metilação, como já discutido em uma coluna anterior . Assim, eles tornam-se seletivamente neutros e podem fixar-se nas populações através de deriva genética. Com o tempo, os RVEs acumulam deleções e mutações que fazem com que praticamente todos eles sejam defeituosos. Existe expressão genética por parte de alguns retrovírus endógenos humanos, mas todos os que conhecemos são incapazes de se replicarem.

Anjos ou demônios? A seleção natural é um mecanismo fantasticamente oportunista, capaz de recrutar os elementos genômicos mais inusitados para a batalha evolucionária. Assim, não é nada surpreendente que alguns RVEs tenham adquirido uma função fisiológica. Estou especificamente falando de um família de retrovírus endógenos chamada HERV-W, que contém cerca de 100 cópias, todas elas defeituosas, com exceção de uma única, que codifica uma proteína intacta de envelope viral. Essa proteína é expressa em células da placenta humana e acredita-se hoje que ela esteja envolvida em uma das etapas fundamentais da formação da placenta a fusão de células necessária para formar uma estrutura com o nome "cabeludo" de sinciotrofoblasto. Fica então claro e evidente que alguns retrovírus endógenos podem ter uma face de anjo. E de demônio? Na verdade, não temos provas claras de atividades nocivas dos retrovírus endógenos. Há relatos de possíveis participações na gênese de tumores e de algumas doenças auto-imunes humanas, como a síndrome de Sjögren. Especialmente tem se tentado implicar os RVEs na etiologia da esclerose múltipla e da esquizofrenia. No frigir dos ovos, a maior parte da evidência é indireta e circunstancial. Afinal, se todas as pessoas têm os mesmos RVEs, como podem eles serem a única causa das doenças? Novos estudos estão tentando relacionar os retrovírus endógenos geneticamente polimórficos com doenças, mas os dados ainda são muito preliminares para serem discutidos aqui.

[p]Fonte:Retrovírus endógenos