O hipotireoidismo é uma condição endócrina caracterizada pela diminuição da quantidade dos hormônios tireoidianos no organismo, que pode ser temporária ou definitiva.

A tireoide é uma glândula com um formato que se assemelha a uma gravata borboleta e está localizada sob a pele da região anterior – parte da frente – do pescoço, logo abaixo do pomo de adão e junto à traqueia. Ela é responsável pela produção de dois hormônios: a triiodotironina (T3) e a tiroxina (T4). Para produzi-los, a tireoide necessita de iodo, um elemento químico existente nos alimentos e na água. A tireoide capta o iodo e o processa para produzir o T3 e o T4.

Esses hormônios controlam a velocidade com que as funções químicas do organismo ocorrem (taxa metabólica) e, por isso, sua diminuição contribui para diversas disfunções, como, por exemplo, sonolência, dificuldade de concentração, depressão, cansaço fácil, aumento de peso, alteração na menstruação, obstipação, diminuição do ritmo cardíaco, aumento da taxa de colesterol, etc.

A tireoide atua em conjunto com outras duas glândulas localizadas no cérebro: a hipófise e o hipotálamo. A hipófise produz o hormônio tireoestimulante (TSH), que, como o próprio nome diz, atua como um gatilho, acionando ou desestimulando o funcionamento da tireoide. Quando a quantidade de hormônios tiroidianos circulantes no sangue atinge uma determinada concentração, a hipófise reduz a produção do TSH e vice-versa. Trata-se de um mecanismo de controle por retroalimentação (feedback) negativa.

As causas

A causa mais comum do hipotireoidismo é a tireoidite auto-imune, também chamada de tireoidite de Hashimoto. Ela é decorrente de uma produção anormal de anticorpos que atacam a tireoide e causam uma diminuição dos hormônios produzidos. Esse tipo de situação é mais comum em mulheres.

Outro tipo de inflamação da tireoide, a tireoidite granulomatosa subaguda, pode ocasionar hipotiroidismo temporário ou permanente. Geralmente esse tipo de tiroidite ocorre após uma infecção, viral ou bacteriana, que começa com uma inflamação na garganta e acomete a tireoide. A glândula pode ficar dolorosa e o indivíduo apresentar febre baixa. Essa inflamação faz com que a tireoide a princípio libere uma quantidade excessiva de hormônios tireoidianos na corrente sanguínea causando um quadro agudo de hipertireoidismo seguido por uma fase de hipotireoidismo. Na maior parte dos indivíduos esse hipotireoidismo regride em alguns meses, porém, em alguns casos, a tireoide é lesionada de tal forma que o hipotireoidismo pode tornar-se permanente.

Existe um tipo de tireoidite que acomete com mais frequência mulheres no pós-parto, chamada de TPP (tireoidite pós-parto), na qual a tireoide pode aumentar de tamanho, mas em geral não há dor. Em um período variável de algumas semanas a vários meses a gestante pode apresentar hipertireoidismo seguido de hipotireoidismo.

A segunda causa mais comum de hipotireoidismo é decorrente do tratamento de outra disfunção da tireoide: o hipertireoidismo. Quando o tratamento requer terapia com iodo radioativo ou tireoidectomia total (retirada cirúrgica da tireoide), os indivíduos evoluem para o hipotireoidismo. Quando a retirada da tireoide é parcial, há uma grande chance de o indivíduo não apresentar hipotireoidismo.

O hipotireoidismo também pode ser desencadeado por causas congênitas. Um indivíduo pode nascer sem a tireoide ou mesmo com ela fora do lugar, também chamada de tireoide ectópica. Neste último caso, embora o órgão exista, ele não consegue realizar suas funções.[/p]

Como a hipófise estimula o funcionamento da tireoide, uma disfunção naquela glândula também pode levar ao hipotireoidismo – neste caso chamado de secundário –, já que há redução da produção do TSH, que é o hormônio estimulante da tireoide.

É importante destacar que a deficiência de iodo no organismo também pode causar hipotireoidismo, já que o iodo é a matéria prima usada pela glândula para fabricar T3 e T4. Para um bom funcionamento da tireoide, recomenda-se um consumo mínimo de 150 mcg de iodo por dia, quantidade facilmente suprida por uma dieta cujos alimentos sejam preparados com sal de cozinha. A deficiência de iodo na dieta deixou de ser uma causa importante de hipotireoidismo desde que a legislação brasileira passou a exigir o enriquecimento do sal de cozinha com iodo.

Diagnóstico

A detecção do hipotireoidismo é feita com testes laboratoriais para a dosagem do hormônio secretado pela hipófise (TSH) e dos hormônios tireoidianos (T3 e T4). Os anticorpos anti-tireoide e a ultra-sonografia de tireoide para avaliar a anatomia da glândula são exames que podem complementar o diagnóstico. A grande dificuldade do diagnóstico consiste, no entanto, em decidir quando realizar os exames, uma vez que os sintomas do hipotireoidismo são bastante inespecíficos.

É muito importante que no pré-natal das gestantes seja investigada a possibilidade de disfunção tireoidiana, já que até a 26ª semana de gestação, o feto depende exclusivamente dos hormônios tireoidianos da mãe.

Nos recém-nascidos o diagnóstico é feito pelo teste do pezinho. A legislação determina que os serviços públicos e particulares de saúde realizem essa investigação, já que nessa fase da vida o hipotireoidismo não tratado pode afetar o desenvolvimento da criança, causando déficit de crescimento, deficiência mental e surdez.

Tratamento

O tratamento do hipotireoidismo consiste basicamente na reposição da tiroxina (T4). O hormônio sintético é chamado de levotiroxina e pode ser encontrado nas farmácias com vários nomes comerciais. A administração da medicação é por via oral e muitas vezes o indivíduo precisa tomar o comprimido pelo resto da vida.

Na maioria dos casos, não é necessário fazer a reposição do T3, já que fazendo corretamente a reposição do T4, o indivíduo fornecerá ao organismo a matéria prima para fazer a conversão deste hormônio em T3. Essa conversão dá-se, principalmente, no fígado.

A dosagem de T4 necessária para reposição é variável para cada indivíduo e é comum ser necessário repetir várias vezes os testes de dosagem de TSH até que uma dose adequada da levotiroxina seja atingida.

Fonte: Fleury Medicina e Saúde