Amebas, um grupo de organismos amorfos, unicelulares, que vivem no corpo humano, podem matar células intestinais humanas arrancando sucessivemente pedaços delas, constata um novo estudo.

Essa é a primeira vez que cientistas observaram esse processo de matança celular. Algum dia, as novas descobertas poderiam ajudar a tratar infecções parasitárias que provocam a morte de crianças em todo o mundo, anunciaram os pesquisadores.
Em seu estudo, os cientistas analisaram a Entamoeba histolytica. Esse parasita causa a amebíase, doença diarreica ocasionalmente fatal, comum no mundo em desenvolvimento. Mas a amebíase também é um problema nos países desenvolvidos, por exemplo, entre viajantes e imigrantes.

"A diarreia é mais importante como que malária, tuberculose e HIV como causa de mortalidade infantil ", alertou o autor do estudo, William Petri, chefe da divisão de doenças infecciosas e saúde internacional da University of Virginia. Nas favelas de Daca, em Bangladesh, por exemplo, 30% das crianças estão infectadas com o parasita antes de completarem um ano, segundo ele.

Essa ameba "pode ‘perfurar’ o intestino, provocando colite, ou inflamação do cólon, e se alastrar para o fígado e causar abscessos hepáticos", explicou Petri. "No entanto, durante 111 anos, desde que a Entamoeba histolytica ganhou seu nome, a forma como ela mata células se manteve misteriosa", acrescentou.

Cientistas haviam sugerido que amebas matam células antes de devorá-las. Mas agora pesquisadores mostraram que ocorre o inverso: elas tiram pedaços das células para matá-las.
A descoberta foi feita pela principal autora do estudo, Katherine Ralston, uma bióloga celular na University of Virginia.

Foi completamente surpreendente", declarou Petri à Live Science. "Foi uma observação que Katy [Ralston] fez e que me escapou, e eu estudei esse parasita durante toda a minha carreira profissional de 25 anos".

Através de observações microscópicas, Ralston havia notado indícios de que as amebas estavam tirando pequenos nacos das células até matá-las. Ela confirmou suas suspeitas ao marcar células humanas com "etiquetas" fluorescentes e viu como minúsculos fragmentos brilhantes dessas células acabavam dentro dos parasitas.
Uma só subtração de pedaço não mata células. Para isso são necessárias muitas investidas, explicaram os pesquisadores.

Esse "mordiscar" é similar a um processo chamado trogocitose, que já havia sido observado antes em células do sistema imune. Mas, enquanto a trogocitose imune não mata seus alvos, a trogocitose amebiana mata.

"Esse é um mecanismo completamente novo de matar células", salientou Petri. "Resta ver que outros organismos e processos biológicos ocorrem pelo mesmo processo".
Como a trogocitose é observada tanto em amebas como em humanos, isso pode ser muito antigo do ponto de vista evolutivo, "remontando a muito antes da evolução de organismos multicelulares", teorizou.

De acordo com os pesquisadores, as amebas provavelmente obtêm pouco sustento das células que atacam até matar porque elas não se alimentam de seus restos: assim que as células morrem, os parasitas desgrudam delas e literalmente eliminam seus restos no meio. As amebas provavelmente vivem principalmente dos grupos de bactérias que normalmente habitam o intestino humano, sugerem os cientistas.

Se as amebas não recebem um valor nutricional significativo das células que despedaçam, então por que matá-las? A suspeita é que elas poderiam estar fazendo isso para driblar o sistema imune humano.

"Normalmente, muitas células do corpo humano morrem todos os dias, e células conhecidas como macrófagos se alimentam dessas células mortas", salientou Petri. Quando macrófagos consomem células, eles em geral liberam substâncias químicas que enfraquecem inflamações. "Ao deixarem células mortas espalhadas pelo intestino as amebas talvez consigam suprimir inflamações que, de outro modo, poderiam prejudicá-las", conjectura Petri.

De acordo com o cientista, uma melhor compreensão de como a Entamoeba histolytica mata células pode indicar meios de prevenir ou tratar a amebíase.
Esse parasita usa, por exemplo, uma proteína exclusiva de ligação de açúcar para aderir a células humanas e o desenvolvimento de vacinas contra essa proteína poderia ajudar a evitar a doença. Os cientistas também constataram que medicamentos que bloqueiam outra proteína exclusiva dessa ameba fizeram com que os parasitas parassem de se alimentar de células humanas.

"Ao visarmos moléculas exclusivas desse parasita, temos melhor chance de conceber terapias que combatam a ameba sem afetar humanos", afirmou Petri.

Os cientistas detalharam suas descobertas na edição de 10 de abril da publicação científica Nature.

Fonte: Scientific American Brasil