Mais de um século depois do início das pesquisas de alternativas para o sangue que circula em nossas veias, a descoberta persiste como sonho. Especialmente depois que um importante estudo deu um golpe aparentemente fatal nessa área ao determinar que os principais candidatos a sangue sintético na época tinham mais chances de matar que salvar a vida de uma pessoa. Isso tudo depois que bilhões de dólares em investimentos públicos e privados e da falência de várias empresas.

A partir de 2011, no entanto, essa área agonizante recebeu novo impulso; dessa vez, de um grupo de pesquisadores franceses que sugeriu uma nova abordagem para aumentar os estoques de sangue. Sua principal concepção: não tente recriar milhões de anos de evolução. Em vez disso, eles propuseram "pegar carona" no que a natureza já tinha feito ao persuadir células-tronco a assumir a tarefa.

O atrativo de criar alternativas para o sangue é óbvio. Depois de um trauma em campo de batalha ou um acidente de carro uma transfusão imediata de sangue artificial que, teoricamente, poderia funcionar com qualquer tipo de sangue, sem necessitar de refrigeração, certamente seria uma ferramenta médica muito bem-vinda. Um produto sintético que superasse o prazo de validade normal, de 42 dias, dos glóbulos vermelhos (eritrócitos ou hemácias) e que até impedisse o risco mínimo de transmitir uma doença sanguínea também figuraria no alto da lista de desejos dos médicos. Mas um produto desses ainda não foi criado, nem teve sua segurança comprovada em humanos.

Não por falta de tentativas. Embora células sanguíneas desempenhem múltiplas funções no organismo e tenham interações complexas com outros componentes celulares, a maioria dos produtos relacionados ao sangue e derivados (ou hemoderivados) sintéticos tem se limitado ao básico: transportar oxigênio dos pulmões para diferentes órgãos vitais e depois levar o dióxido de carbono de volta aos pulmões para ser exalado.

Quando a contagem de glóbulos vermelhos fica baixa, órgãos do corpo podem estar sendo privados do oxigênio de que necessitam, tornando uma pessoa fraca e resultando em graves problemas de saúde. A abordagem mais popular para replicar essa função tem sido criar transportadores de oxigênio à base de hemoglobina artificial - proteínas dos glóbulos vermelhos, que atuam como um serviço de transporte de oxigênio - e modificá-las quimicamente para aumentar sua capacidade de oxigenação.
A nova ideia é fazer com que o corpo desenvolva seu próprio substituto, um produto que não seria igual ao sangue integral, mas que poderia funcionar em seu lugar em uma emergência.

Um grupo de pesquisa com sede em Paris, liderado por Luc Douay, professor de hematologia da Faculdade de Medicina da Universidade Pierre e Marie Curie, já teve algum sucesso.
Os cientistas extraíram células parecidas com células-tronco do sangue que circulava através do corpo de um paciente e as manipularam para que se tornassem glóbulos vermelhos quase idênticos aos que normalmente transportam oxigênio no corpo. Para isso, a equipe injetou dois mililitros de células sanguíneas derivadas de células-tronco no paciente — uma quantidade muito menor que a necessária em uma transfusão de sangue comum.
As células experimentais tinham se dado bem com o armazenamento em baixas temperaturas e circularam no corpo com um tempo de vida igual ao dos glóbulos vermelhos originais.

Resumindo: o experimento, embora conduzido em apenas uma pessoa, acessando células de seu próprio corpo, provou que isso pode ser feito. "Essa é uma abordagem promissora", antecipa Harvey Klein, chefe do Departamento de Medicina de Transfusão no National Institutes of Health. "Existe uma vertente de pessimistas que acredita que, devido aos custos, isso nunca se materializará em um nível prático, mas escutei isso toda a minha vida sobre diferentes áreas da medicina, inclusive sobre transplantes de medula óssea na década de 60". Ainda assim, ele e outros advertem que o campo está longe de poder renunciar à necessidade de doadores de sangue para cuidados cotidianos.

Na realidade, o mercado para produtos sanguíneos artificiais provavelmente seria limitado a pessoas com tipos sanguíneos raros e que, devido a doenças sanguíneas, exigem novas transfusões, talvez a cada dois meses.
É um avanço encorajador para um campo cheio de esforços curiosos e às vezes embaraçosos para chegar ao poder salvífico do sangue

Fonte:Scientific American Brasil