Imagine se seu corpo começasse, de forma oculta, lenta e gradual, a se auto sabotar. Se, inesperadamente, ele passasse a agredir suas próprias estruturas, confundindo células, tecidos e órgãos com perigosos invasores que devem ser combatidos a todo custo. Essa guerra pode parecer impossível e distante da realidade, mas é exatamente o que acontece no organismo de quem é portador de doenças autoimunes, que afetam cerca de 7% da população mundial.

A medicina já catalogou mais de 30 doenças autoimunes, e a que mais intriga médicos, pesquisadores e pacientes é o Lúpus. Embora seu tratamento tenha avançado muito nos últimos anos, ainda existem muitas perguntas sem resposta, e para desvendá-las entrevistamos o Dr Luís Eduardo Coelho Andrade, coordenador da câmara de pós-graduação e pesquisa da Escola Paulista de Medicina e assessor médico em imunologia e reumatologia do Fleury. Confira abaixo.

O que é o Lúpus?O Lúpus é uma doença inflamatória crônica sistêmica. Isso quer dizer que ele provoca inflamação em vários tecidos e células do corpo, como a pele, articulações, juntas, os rins, e até mesmo no sistema nervoso.

Quais são as causas desta doença?As causas exatas do Lúpus não são conhecidas, o que sabemos, é que existe uma anormalidade no sistema imunológico, o que faz com que ele passe a reconhecer e agredir células e tecidos do próprio organismo. Este fato é considerado uma disfunção, pois o sistema imunológico é feito pra reconhecer e atacar toxinas, bactérias e vírus de agentes externos, não do próprio organismo. E é exatamente este cenário que recebe o nome de autoimunidade, e o Lúpus é uma das mais eloquentes enfermidades que representam o conjunto de doenças autoimunes.

Quais são os principais sintomas?Os principais sintomas envolvem a pele, as articulações, os rins e
o sistema nervoso central. Na pele você pode ter manchas vermelhas em várias regiões, principalmente nos locais expostos ao sol. Alguns pacientes exibem reação de muita vermelhidão após uma pequena exposição ao sol. Esta é considerada uma reação desproporcional, que chamamos de foto sensibilidade. Outras pessoas podem apresentar dores e inchaço nas articulações. Com relação aos rins, o paciente pode apresentar uma urina muito espumosa, pressão alta e inchaço generalizado.
No sistema nervoso pode haver quadros parecidos com derrames cerebrais, ataques epiléticos, convulsões, paralisia de nevos periféricos, entre outros. Uma característica, um tanto quanto curiosa, é que há períodos de muita atividade da doença, com muitos sintomas e sinais, e outros que chamamos de inatividade, no qual a doença aparenta ter adormecido.

O Lúpus é uma doença transmissível?O Lúpus não tem qualquer evidência de ser uma doença transmissível ou contagiosa. Apenas temos evidências de que fatores ambientais podem contribuir pra desencadear o Lúpus, em indivíduos que tenham uma predisposição à doença. E por falar em predisposição, sim, o Lúpus tem componente genético hereditário. Parentes de primeiro grau de pacientes lúpicos tem uma maior chance de desenvolver o Lúpus do que a população de modo geral. Porém esta predisposição não é muito forte, há apenas uma pequena chance de obter a doença, não existindo a necessidade de uma preocupação excessiva por parte do grau de parentesco.

Quais exames podem ser úteis para a confirmação do diagnóstico do Lúpus?Existem alguns exames de natureza imunológica e outros de natureza não imunológica. Entre os não imunológicos, temos alguns exames de rotina, como hemograma, exame básico de urina, pesquisa de proteína na urina, creatinina e ureia, que medem a função renal. No geral são exames deste tipo, que avaliam órgãos. Entre os imunológicos, os principais se referem á auto- anticorpos, que são os anticorpos que se voltam ao próprio organismo, conforme citado nas respostas anteriores. A triagem é feita por um teste chamado FAN (Fator Anti Núcleo). Frente á um FAN positivo, é importante identificar o tipo de anticorpo presente e se este se encaixa aos sintomas apresentados pelo paciente. Dentre alguns dos anticorpos específicos para Lúpus, estão o anti DNA nativo, Anti SM, anti proteína P Ribossomol. E ainda na área imunológica, utiliza-se a dosagem do complemento sérico, que são as proteínas existentes no soro.

Existe tratamento para Lúpus?Sim, houve bastante progresso neste tratamento. Há uma crescente variedade de medicamentos com capacidade de controlar e modular o sistema imunológico, de modo a melhorar os sintomas e sinais. Hoje, uma pessoa que tem Lúpus pode perfeitamente planejar uma vida normal, casar, desenvolver sua carreira profissional e muito mais. Mas para que isto aconteça, é importante que o paciente seja bastante disciplinado, e estabeleça uma parceria com o seu médico. É preciso que haja total obediência aos prazos, bem como ao comparecimento às consultas, a realização dos exames no tempo correto e, sobretudo, a tomar a medicação da maneira como foi prescrita. O Lúpus é uma doença crônica e requer cuidados prolongados, mas não impede que o paciente disciplinado tenha uma vida de boa qualidade e possa tocar em frente todos os planos que tinha antes de diagnosticar a doença.

Fonte:Fleury Medicina e Saúde