Pelo menos 1% dos pacientes relata estar consciente durante todo o processo cirúrgico. No suspense norte-americano 'Awake – A Vida Por Um Fio' (2007), o ator Hayden Christensen interpreta Clay Beresford, um jovem e rico empresário que, ao ser submetido a uma cirurgia no coração, descobre sofrer um distúrbio raro. Apesar de anestesiado e sedado, Clay continua consciente e acompanha a conversa dos médicos durante a operação. Nem tudo no enredo é ficção, dizem especialistas. Pelo menos 1% dos pacientes relata estar consciente durante todo o processo cirúrgico. Pesquisadores britânicos descobriram uma maneira de saber quando isso acontece.

Os resultados da pesquisa feita na Universidade de Oxford, no Reino Unido, foram publicados hoje na revista Science Translational Medicine. "Trabalhamos nesse projeto há cerca de quatro anos. Embora os anestésicos sejam utilizados nas cirurgias diariamente com segurança, ainda não temos uma imagem clara de como eles funcionam no cérebro humano. O avanço da neurociência nos ajuda a resolver algumas dessas questões difíceis, como o processo pelo qual os indivíduos perdem a consciência sob anestesia", conta Catherine Warnaby, uma das autoras do estudo. Com a participação de 16 voluntários saudáveis, os cientistas analisaram como as respostas do cérebro aos mais diversos estímulos mudam quando um anestésico é aplicado gradualmente. Assim, conseguiram identificar o ponto exato em que o paciente perde a consciência.

A partir da eletroencefalografia — técnica na qual eletrodos são colocados no couro cabeludo dos voluntários para registrar a atividade elétrica do cérebro — e de ressonância magnética, os cientistas analisaram quais regiões apresentavam padrões de comportamento diferentes. Algumas ondas cerebrais lentas, de 0,5Hz a 1,5Hz, chamaram atenção. "Vimos que a quantidade de energia elétrica cerebral atingiu o ápice antes que a dose de anestésico aumentasse. As ondas lentas aumentaram quando os indivíduos pararam de responder e atingiram o máximo após algum tempo. Esse nível máximo foi diferente para cada pessoa e estava relacionado com a quantidade de matéria cinzenta (ou neurônios) que tinha no córtex frontal dos voluntários", explica a cientista. Os resultados indicaram um padrão de atividade que, de acordo com os pesquisadores, era desconhecido. Além dos dois tipos normais de atividade, o sensível e o insensível aos estímulos, os pesquisadores encontraram o padrão de "saturação da atividade das ondas lentas" (SWAS, em inglês).

"Nós já sabíamos que as ondas lentas aumentam durante a anestesia, mas ninguém havia demonstrado como isso acontece ou como está correlacionado com a estrutura do cérebro de um indivíduo. Os dados de imagem também são novos e mostram que esse estado reflete isolamento dos estímulos externos e do mundo exterior", completa Warnaby. Segundo ela, durante o SWAS, uma rede cerebral completamente diferente é ativada. As descobertas podem ter implicações para todos os tipos de estados e distúrbios alterados de consciência, como a síndrome do encarceramento ou estado vegetativo persistente. A técnica também pode ser útil para a administração de sedação para pessoas que recebem cuidados de longa duração em unidades de terapia intensiva.

"O trabalho é interessante porque identifica o que acontece no coma induzido, quando o paciente está sob efeito da anestesia, e esclarece o que ocorre no cérebro nesse momento", avalia Renata Pachota, neurologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB). A médica, porém, acredita que o aspecto prático do estudo "não é muito expressivo". "Talvez, seja interessante para ajudar os médicos a manterem o paciente em um nível constante de sedação durante toda a cirurgia, não esperando que ele acorde para administrar outra dose", cogita.

Fonte: Saúde Plena