A conclusão acima refere-se a um experimento em camundongos, mas seus resultados estão começando a ser transferidos para o homem, realizando um sonho da medicina que parecia distante há poucos anos: dispor de uma fonte abundante de células para reparar tecidos e órgãos lesados. O princípio da terapia celular é simples: restaurar a função de um órgão ou tecido, transplantando novas células para substituir as células perdidas pela doença, ou substituir células que não funcionam adequadamente devido a um defeito genético. Esse princípio não é novo em medicina. Por exemplo, a sua forma mais simples, a transfusão de células do sangue (hemácias, granulócitos, plaquetas), é uma das abordagens terapêuticas mais amplamente utilizadas no mundo, assim como numerosas formas de transplantes de órgãos e tecidos, como os transplantes de medula óssea, de rim, de fígado, de coração ou de pulmão.

No entanto, esses transplantes de órgão inteiro são limitados porque somente se aplicam a algumas situações clínicas. Há uma escassez de doadores e os custos podem ser muito elevados, superiores a US$ 100 mil no caso de transplante de fígado e, além disso, são procedimentos invasivos, associados com mortalidade elevada. Uma alternativa seria utilizar células indiferenciadas (células-tronco), injetadas na circulação ou no local da lesão, na expectativa de que elas se diferenciem em células especializadas daquele tecido ou órgão, substituindo as células defeituosas ou destruídas. Para isso, é necessário dispor de um suprimento de células-tronco e conhecer os procedimentos para dirigir sua diferenciação no sentido desejado para aquele paciente. O conhecimento de que uma única célula é capaz de dar origem a mais de 200 tipos diversos de células diferenciadas de tecidos adultos não é novo, pois constitui a premissa básica da embriologia: o óvulo fecundado divide-se, dando origem a um pequeno número de células idênticas no início do desenvolvimento embrionário.

Com o crescimento do embrião, elas vão se diferenciando, cada uma capaz de dar origem a um número limitado de tecidos. No entanto, a identificação de células com esse potencial em tecidos dos adultos e a sua aplicação terapêutica são muito mais recentes. As células-tronco podem ser classificadas em dois grupos: células-tronco embrionárias e células-tronco do adulto, específicas para cada órgão ou tecido. As embrionárias caracterizam-se pela sua capacidade ampla de originar as demais células do organismo e podem ser obtidas de três formas distintas. A maioria das linhagens de células embrionárias disponíveis é derivada de embriões em fase muito inicial de desenvolvimento, uma técnica desenvolvida por J. Thomson, da Universidade de Wisconsin. No 5º dia após a fecundação, o embrião é composto por cerca de 200 a 250 células, formando um cisto denominado blastocisto, cujas células são separadas em dois grupos: uma camada externa (o trofoectoderma), que vai constituir a placenta e o saco amniótico, e uma massa compacta de 30 a 34 células, localizada internamente em um dos pólos do cisto, que dará origem aos tecidos do feto.

Essas células da massa interna podem ser cultivadas in vitro e originar linhagens de células embrionárias capazes de diferenciar-se em tecidos de adultos. Um outro tipo de células embrionárias foi obtido inicialmente por J. Gearhart, da Universidade Johns Hopkins, a partir de 38 culturas de células germinativas embrionárias de fetos entre a 5ª e a 9ª semana de desenvolvimento. Essas células são retiradas de uma estrutura denominada prega gonadal e, posteriormente no adulto, vão originar os espermatozoides e os óvulos. Uma terceira abordagem pode originar células-tronco embrionárias. Embora não tenha sido utilizada como fonte das linhagens de células registradas, essa técnica ganhou muito destaque na imprensa recentemente, quando pesquisadores da empresa Advanced Cell Techonology a utilizaram para produzir "embriões" humanos de quatro a seis células. A técnica, denominada transferência de núcleo somático, baseia-se na remoção do núcleo de um óvulo, que, em condições adequadas, funde-se com uma célula somática (naquele caso, fibroblastos da derme). Se esse "ovo" começar a dividir-se, poderá originar um embrião cujo patrimônio genético é o mesmo do doador da célula somática.

Por esse motivo, a técnica é popularmente conhecida como clonagem, pois pode teoricamente produzir numerosos adultos, todos com o mesmo patrimônio genético do doador. De fato, essa técnica foi utilizada por Ian Wilmut, do Instituto Roslin, para produzir a ovelha Dolly. A interrupção do desenvolvimento do "embrião" na fase de blastocisto pode originar uma linhagem de células embrionárias com o mesmo patrimônio genético do doador. A produção de células embrionárias para pesquisa e terapêutica está cercada de intensa controvérsia ética. Assim, em agosto de 2001, o presidente dos Estados Unidos autorizou pesquisas com verba federal norte-americana envolvendo células embrionárias somente para linhagens estabelecidas previamente àquele anúncio, que atendessem a quatro critérios: as células derivaram de um embrião criado para fins reprodutivos, o embrião não era mais necessário para aquela finalidade, a doação do embrião foi feita após informação do responsável, e não houve incentivo financeiro para a doação. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que cada tecido adulto tem um tipo próprio de célula precursora, com capacidade limitada de diferenciação. Mais recentemente, acumularam-se evidências, em animais e nos humanos, de que células-tronco dos adultos podem romper essas barreiras.

Assim, células obtidas de medula óssea poderiam ser utilizadas para reconstituir fígado, cérebro, músculo ou coração, característica que tem sido chamada de plasticidade. Por exemplo, células de medula óssea, injetadas próximas às bordas de infarto experimental em camundongos, diferenciam-se em células musculares e vasculares, substituindo o miocárdio lesado. Existe hoje um grande entusiasmo quanto às possibilidades de empregar células-tronco para tratar numerosas doenças humanas. Os maiores desafios imediatos são a identificação de fontes abundantes de células purificadas e a padronização de métodos adequados para condicionar sua diferenciação no sentido do tecido necessário. No momento, as fontes mais promissoras para terapia são as células-tronco de adultos obtidas de medula óssea ou de sangue periférico, além daquelas que poderiam ser obtidas do sangue de cordão umbilical. O uso de linhagens de células embrionárias é mais problemático: apesar da vantagem de serem células purificadas com amplo potencial de diferenciação, sua manipulação ainda exige mais aperfeiçoamento até que possam ser amplificadas in vitro e dirigidas quando à sua diferenciação in vivo.

As linhagens obtidas por transferência de núcleo somático ("clonagem") teriam a vantagem teórica de não determinar a rejeição, pois o tecido formado teria as características genéticas do doador do núcleo (o mesmo receptor do tecido). No entanto, o conhecimento sobre a imunologia desses tipos de transplantes de células embrionárias é ainda incipiente. Por exemplo, no caso de transplante de células hematopoéticas, o uso de células do cordão umbilical mostrou-se muito mais tolerante quanto à discrepância entre antígenos HLA do doador e do receptor do que os transplantes que utilizam células de medula de adulto. Com células muito mais "primitivas", como as células embrionárias, essa tolerância poderia ser maior ainda. Em resumo, a clonagem é apenas uma das fontes possíveis de células para terapia celular, que ofereceria a vantagem de produzir células imunologicamente idênticas às do paciente. Há numerosos problemas práticos que precisam ser resolvidos com relação ao isolamento, purificação, manipulação, diferenciação e aplicação de células para viabilizar o sucesso da terapia celular.

Os recursos e a atenção da ciência e dos cientistas devem estar voltados para obter resposta para essas questões, antes que a clonagem ocupe uma posição prioritária nesse contexto. Mesmo assim, é necessário distinguir claramente a clonagem terapêutica da clonagem reprodutiva, tanto do ponto de vista prático quanto conceitual e ético.

Fonte:Passeiweb